ELEGIA À MORTE DE UMA FAMOSA ALCOVITEIRA
Gênio só dado a sórdidas torpezas,
Que usas comprar na imunda Cotovia
Chochos agrados de venais belezas:
Solto o cabelo, as carnes arrepia
Na morte d’esta ilustre recoveira,
E inspira-me tristíssima elegia.
Honrada, e a mais sabida alcoviteira,
A ti consagro este cipreste umbroso,
Com que te enramo a esquálida caveira;
Em quanto pelo rio pantanoso
A ouvir te leva o pálido Caronte
Severas leis de Minos rigoroso.
Alçando para o ar a crespa fronte
Os ouvidos estende ás vozes minhas,
Quando no mundo os teus louvores conte.
Vós, moças do Bairro-Alto e Fontainhas,
Vós testemunhas sois da grande falta
Que chorando contais entre as vizinhas.
Ai! Que há de ser de vós, gente de malta!
Eu vejo em vossas faces o desgosto,
E a dor, que os corações vos sobressalta!
Morreu a vossa mãe, o vosso encosto,
Que vos ganhava o pão honradamente,
Inda que com suor do vosso rosto!
Não mais vereis entre a mundana gente
D’aquela honrada boca o grato riso,
Que descobria um solitário dente!
Morreu a discrição, foi-se o juízo,
Vós o sabeis: melhor que esta viúva
Ninguém fez um recado de improviso.
Embrulhada na capa ao vento, á chuva,
Ela comprar-vos ia caridosa
As ginjas, os melões, a pera, a uva:
Vendo qualquer de vós triste e chorosa,
Ela desassossega, ela trabalha
Por livrar-vos da pena lamentosa:
Conhecia os tafuis já pela malha,
Ela vos apartava dos sovinas,
Para aqueles que dão maior medalha:
Chupista de dinheiro e de tolinas,
Por todas repartindo esta pendanga,
Ela era o vosso bem, e as vossas minas.
C’os homens depravados tinha zanga,
Gostava da modéstia, e da virtude
Dos que dão a beijar cordão e manga.
Se a mandavam beber, era um almude,
E ás vezes não parava até que a boca
Se lhe punha mais grossa do que grude.
A que a buscava, e que não era louca,
A recolhia em casa, e pela mama
Apenas lhe levava cousa pouca.
Sempre de todas dava boa fama,
De fregueses lhe armava quantidade,
Té as pôr sobre si com casa e cama.
Nos ganhos não levou nunca metade;
Qualquer cousa aceitava, porque pensa
Que o mais era faltar à caridade.
Dotada foi de caridade imensa;
Sempre ao lado se achou da sua amiga
No tempo da saúde, e da doença.
Aquela moça gordalhuda o diga;
Ela pode pintar mais vivos quadros
D’esta estimável, d’esta amante liga.
No tempo em que ela andou vagando os adros
Mil vezes lhe curou c’os seus inventos
Cruéis camadas de piolhos ladros.
Ela mesma c’os dedos fedorentos
Cheia de amor, de caridade cheia,
Lhe ministrava os fétidos unguentos.
Á frouxa luz da tremula candeia,
Que tem no chamejar seus intervalos,
As chagas cura, a porquidade asseia:
De alvíssima pomada untando os cal os,
As partes amacia, que mordera
O dente de ardentíssimos cavalos.
Jamais no seu trajar luxo tivera,
Nem na sua cabeça houve polvilhos,
Depois que seu marido lhe morrera.
Foi a primeira em dar ensino aos filhos;
Procurai este trilho verdadeiro
Vós, oh pais, que seguis dif’rentes trilhos.
Uma filha, que Deus lhe deu primeiro,
Arrimada a deixou com loja aberta;
Teve um filho, que foi alcoviteiro.
Eia, pais de famílias, olho alerta;
Se quereis vossos filhos empregados,
Tendes século bom, e é moça certa.
Dispôs da sua terça, que tirados
Os gastos funerais, que lhe fariam
Os devotos irmãos, gatos-pingados,
Os seus testamenteiros comprariam
C’o resto uma barraca, em que decente
Uma casa d’alcouce erigiriam:
Que haveriam noviças e regente;
Proveu logo este cargo na Coveira,
Por ser mais respeitosa, e mais prudente:
A Santarena fica tesoureira;
Chamou para escrivã a Ignácia China,
Felícia de Chaté madre rodeira.
Ninguém melhor os seus vinténs destina,
Porque para solteiras e casadas
Vejam que seminário de doutrina!
Entre as últimas vozes já truncadas,
Chamando a filha com afago, e rogo
Ficaram entre os braços enlaçadas.
“A mecha (lhe diz ela) junto ao fogo
“É fácil de pegar...” Ia adiante,
Porém não disse mais, que morreu logo.
De palidez cobriu-se-lhe o semblante,
Ouviram-se ao redor gritos imensos
Da turba feminil, pouco constante.
Ternos suspiros pelos ares densos
Vão abraçar o seu cadáver frio,
Cobrem-se os olhos de engomados lenços.
Cortou a Parca d’esta vida o fio,
O esp’rito nu, da carne desatado,
Lá vai cruzando o lutulento rio.
Oh dia com razão amargurado!
Em quanto nos lembrar tão triste imagem,
Sempre serás dos bons tafuis chorado.
Cobrir tu viste com pesada lajem
Aquela que nos fez o benefício
De nos dar uma casa d’estalagem.
Ninguém soube melhor do seu ofício;
Nem se achara tão destra alcoviteira
Somente com trinta anos d’exercício.
E vós, mulheres, que gostais d’asneira,
Honrai as suas cinzas, os seus ossos,
E respeitai-lhe a fúnebre caveira.
A morte dá nos velhos e nos moços;
Ninguém se escapa da carranca feia
Depois de preso em seus calabrês grossos.
Conservai pois esta fatal ideia,
E rodeando o corpo desditoso,
Acendei cada qual uma candeia,
E fazei-lhe um sepulcro aparatoso.