EM AGRADECIMENTO DE UMA MOEDA DE TRÊS RÉIS E UM VINTÉM DE PÃO, QUE MANDARAM AO A...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Anastácia, estimarei

Que estas, que aqui fazer pude,

Te encontrem com a saúde.

Que sempre te desejei:

Eu ha dias que passei

Algum tanto molestado;

Porém hoje, Deus louvado,

Já desta batalha conto,

E assim me acharás mui pronto

No que for do teu agrado.

Do teu liberal primor

Fui entregue em própria mão:

Recebi o diabrão,

De que me fazes favor:

Mas causa-me tal horror,

Que ao longe o lenho fechado,

E me deixou admirado

O terrível desarranjo

De sair das mãos d’um anjo

Um dinheiro endiabrado.

O portador, que é fiel,

Junto com o diabrão

Também me entregou um pão,

Embrulhado num papel:

Ser amassado com fel

Geralmente se julgou,

E como tão mau se achou,

Que gente não o faria,

Assentamos que seria,

Do que o diabo amassou.

Cá choro a desgraça minha.

Pois sendo tu pão de trigo

Para outrem, só comigo

Queres fazer má farinha:

Dela creio me convinha

Ração de melhor focinho;

Mas o teu gênio mesquinho

Fez tão desigual quinhão,

Que a mim mandas-me o rolão,

E a outrem dás o beijinho.

Se mandaste o diabrão

Para tentar esta lesma,

E supérfluo; tu, tu mesma

És a minha tentação:

Se o mandas porque a prisão

Me leve de eternos lumes,

Onde eu pague maus costumes,

Já teu rigor me tem preso

No abismo do teu desprezo.

No inferno dos meus ciúmes.

Porém vamos a falar

Na tua letra, pois entendo

Que falando, ou escrevendo.

Sempre me queres enganar;

Não hás de pois reparar

Que na cara te desminta;

A nota pura e distinta,

A pena que a escreveu.

Tudo isto será teu,

Mas a letra está na tinta.

Pois do papel debuxado,

Que mandaste ultimamente,

A letra é tão diferente,

Como do vivo ao pintado:

Ele mostra que o agrado

Teu não terá existência,

No debuxo se figura

Que estas cousas de pintura

Nunca passam da aparência.

Que tu sabes disfarçar,

Do tal papel se interpreta,

Pois podes fingir a letra

Mesmo ali ao pintar:

Esta ação de me enganar

Não cabe em honrados buchos;

E se os afetos machuchos

Me queres pagar sem petas,

Te peço que me não metas

Outra vez nestes debuxos.

Se me não viste, só vens

Nisso a faltar sem refolhos,

Pois não podes pôr-me os olhos

Pela raiva, que me tens:

Mas, se deixando os desdéns,

Pusesses do olho um naco

Sobre mim faminto e fraco,

Tão grande escuro faria.

Que inda assim duvidaria

Se isso é olho ou buraco.

Também a carta continha

Que eu era bem estreado;

Já estou muito acabado.

Isto é chão que já foi vinha,

Porém se a ventura minha

Me abranda o teu coração,

Sairei da tua mão

A impulsos da sorte pia,

Como a gente saía

D’entre as águas do Jordão.

Dos teus amores na chama

Tanto me derreterei,

Que fundido sairei

Um rapaz como uma dama:

Do nosso consorcio a fama

Não quero que então se encubra

Às vizinhas se descubra,

E dir-te-ão com alvoroço,

Olhe, mana, é belo moço,

A benção de Deus o cubra.

Enquanto o teu coração

Não me é de todo inclinado,

E deste nosso noivado

Não chega a alta função.

Peço que te tenhas mão;

Não te mereça piedade

Nenhum secular, nem frade,

Pois nossos amantes tratos

Bem sabes que são contratos,

Que não querem sociedade.

Pelo portador primeiro

Me manda logo dizer,

Se acaso para comeir

Precisas d’algum dinheiro:

Serei o teu tesoureiro,

E prometo assim cumpri-lo,

Que inda que tens bom asilo,

E não passas vida aflita,

Sempre a gente necessita

Para isto, ou para aquilo.

E para (pie mais exaltes

Este amor que bem penetras,

Comigo das tuas letras

Peço que nunca me faltes;

Com desprezos não me assaltes,

Antes te peço que os domes,

E em tudo o que gosto tomes

Me acharás obediente;

Hoje doze do corrente.

Teu menor servo João Gomes.