EM AGRADECIMENTO DE UMA MOEDA DE TRÊS RÉIS E UM VINTÉM DE PÃO, QUE MANDARAM AO A...
Anastácia, estimarei
Que estas, que aqui fazer pude,
Te encontrem com a saúde.
Que sempre te desejei:
Eu ha dias que passei
Algum tanto molestado;
Porém hoje, Deus louvado,
Já desta batalha conto,
E assim me acharás mui pronto
No que for do teu agrado.
Do teu liberal primor
Fui entregue em própria mão:
Recebi o diabrão,
De que me fazes favor:
Mas causa-me tal horror,
Que ao longe o lenho fechado,
E me deixou admirado
O terrível desarranjo
De sair das mãos d’um anjo
Um dinheiro endiabrado.
O portador, que é fiel,
Junto com o diabrão
Também me entregou um pão,
Embrulhado num papel:
Ser amassado com fel
Geralmente se julgou,
E como tão mau se achou,
Que gente não o faria,
Assentamos que seria,
Do que o diabo amassou.
Cá choro a desgraça minha.
Pois sendo tu pão de trigo
Para outrem, só comigo
Queres fazer má farinha:
Dela creio me convinha
Ração de melhor focinho;
Mas o teu gênio mesquinho
Fez tão desigual quinhão,
Que a mim mandas-me o rolão,
E a outrem dás o beijinho.
Se mandaste o diabrão
Para tentar esta lesma,
E supérfluo; tu, tu mesma
És a minha tentação:
Se o mandas porque a prisão
Me leve de eternos lumes,
Onde eu pague maus costumes,
Já teu rigor me tem preso
No abismo do teu desprezo.
No inferno dos meus ciúmes.
Porém vamos a falar
Na tua letra, pois entendo
Que falando, ou escrevendo.
Sempre me queres enganar;
Não hás de pois reparar
Que na cara te desminta;
A nota pura e distinta,
A pena que a escreveu.
Tudo isto será teu,
Mas a letra está na tinta.
Pois do papel debuxado,
Que mandaste ultimamente,
A letra é tão diferente,
Como do vivo ao pintado:
Ele mostra que o agrado
Teu não terá existência,
No debuxo se figura
Que estas cousas de pintura
Nunca passam da aparência.
Que tu sabes disfarçar,
Do tal papel se interpreta,
Pois podes fingir a letra
Mesmo ali ao pintar:
Esta ação de me enganar
Não cabe em honrados buchos;
E se os afetos machuchos
Me queres pagar sem petas,
Te peço que me não metas
Outra vez nestes debuxos.
Se me não viste, só vens
Nisso a faltar sem refolhos,
Pois não podes pôr-me os olhos
Pela raiva, que me tens:
Mas, se deixando os desdéns,
Pusesses do olho um naco
Sobre mim faminto e fraco,
Tão grande escuro faria.
Que inda assim duvidaria
Se isso é olho ou buraco.
Também a carta continha
Que eu era bem estreado;
Já estou muito acabado.
Isto é chão que já foi vinha,
Porém se a ventura minha
Me abranda o teu coração,
Sairei da tua mão
A impulsos da sorte pia,
Como a gente saía
D’entre as águas do Jordão.
Dos teus amores na chama
Tanto me derreterei,
Que fundido sairei
Um rapaz como uma dama:
Do nosso consorcio a fama
Não quero que então se encubra
Às vizinhas se descubra,
E dir-te-ão com alvoroço,
Olhe, mana, é belo moço,
A benção de Deus o cubra.
Enquanto o teu coração
Não me é de todo inclinado,
E deste nosso noivado
Não chega a alta função.
Peço que te tenhas mão;
Não te mereça piedade
Nenhum secular, nem frade,
Pois nossos amantes tratos
Bem sabes que são contratos,
Que não querem sociedade.
Pelo portador primeiro
Me manda logo dizer,
Se acaso para comeir
Precisas d’algum dinheiro:
Serei o teu tesoureiro,
E prometo assim cumpri-lo,
Que inda que tens bom asilo,
E não passas vida aflita,
Sempre a gente necessita
Para isto, ou para aquilo.
E para (pie mais exaltes
Este amor que bem penetras,
Comigo das tuas letras
Peço que nunca me faltes;
Com desprezos não me assaltes,
Antes te peço que os domes,
E em tudo o que gosto tomes
Me acharás obediente;
Hoje doze do corrente.
Teu menor servo João Gomes.