EM DIA DE ANOS DO MARQUÊS DE ANGEJA

By Nicolau Tolentino de Almeida

A rouca lira, musa, temperemos,

Cordas de ouro lhe ponho:

O triste boticário em paz deixemos,

E o gamão enfadonho;

Inspira-me uma vez sonoros hinos,

Que Apolo julgue deste dia dinos.

Ensina-me a louvar do ilustre Angeja

Talentos sup’riores;

Que sofreu os assaltos d’ala inveja,

Como sofre os louvores;

Cuja alma não conhece vis mudanças,

Ou corram tempestades, ou bonanças.

Sem temor estalar o raio ouvia.

Que ao perto fuzilava;

O reto coração tendo por guia,

Seguro caminhava;

Em vão medonha tempestade freme,

Seu grande coração só crimes teme.

Ao pé do trono augusto enfim chamado

Venceu a crua inveja;

Quem no conselho o pôs dos reis ao lado

Não foi o sangue de Angeja,

Não foi de Espanha antigo filhamento.

Foi sã justiça, foi merecimento.

Não revolvo a real genealogia

De Henrique, e de Fernando;

Os sãos louvores deste grande dia

De ti mesmo tirando,

Só louvarei com paternais façanhas

Quem seu nome dever a mãos estranhas.

Vias correr léus dias sossegados

Nutrindo esse alto esp’rito

No que ficou dos séculos dourados

Em prosa, ou verso escrito;

Recolhendo na próvida memória

De estranhos íeis, e de teus reis a história.

Outras vezes rasgando à vasta terra

Seu peito cavernoso,

Ou descobrindo quanto o mar encerra

De raro e precioso.

Profundavas com seria madureza

Os segredos da oculta natureza.

De tão doces estudos arrancado

Por mais altos destinos,

Da lusa gente, e de seus íeis chamado

A empregos de ti dinos,

Sacrificas aos novos soberanos

De maduro saber teus cheios anos.

Permitia o céu que em tais trabalhos vivas

Claro nome entendendo;

E que as douradas horas fugitivas,

As asas encolhendo.

Façam que o tempo demorando o passo

Sinta a fouce cair do frouxo braço.

Que cem vezes raiando este bom dia

O oriente esclareça;

Que imperturbável solida alegria

Com ele te amanheça;

Que em naturais terníssimos afetos

A mão te beijem netos de teus netos.

Mas deixa, ó musa, a frouxa poesia

Para assuntos menores;

Não profanem de Angeja a glória e o dia

Importunos louvores;

Pois inda que soubesses dirigi-los.

Quer merecê-los; mas não quer ouvi-los.

Engana-te o desejo, que te inspira,

Reconhece o teu erro;

Se vês, que só ajustam n’esta lira

Negras cordas de ferro.

Não torças, não, teu misero fadário:

Torna ao gamão, e ao triste boticário.