EM LOUVOR DA AMIZADE

By Nicolau Tolentino de Almeida

Musa frouxa e rasteira,

Que o louco amor, e seus triunfos cantas,

É hoje a vez primeira

Que acima das estrelas te levantas;

Não arda o santo fogo

Sempre em matérias vãs, de riso e jogo.

A virtude sublime,

Filha do céu, a cândida amizade.

Que chama feio crime

Voltar a cara à pobre humanidade,

É quem hoje te inspira.

Quem te apresenta a desusada lira.

Debalde negro fado

Cobriu meus dias de fortuna escura;

Debalde tem jurado

Ser meu contrário até a sepultura;

Não dar-me valimento,

Deixar meu nome em baixo esquecimento.

De solares antigos,

Nem tesouros herdei, nem vã grandeza;

No seio dos amigos

Me pôs o céu mais sólida riqueza;

Não teme duro fado

Quem alcançou fiel amigo ao lado.

Sobre inóspita praia

Lance o mar o navio destroncado;

No rolo d’água saia

O náufrago piloto descorado;

Areias não pisadas

Ensope o triste em lágrimas cansadas;

Se em tão duro castigo

O céu, por novo caso não pensado,

O encontrasse c’o amigo,

Que anda da cara pátria desterrado,

Chorara de alegria.

Feliz talvez chamasse o triste dia.

O escravo na corrente,

Era misero suor banhado o rosto.

Encha d’ouro luzente

A mão cruel, que os ferros lhe tem posto,

Do mineiro avarento.

Que tem no seu tesouro o seu tormento:

Albino impaciente

C’os olhos, e as esperanças no Oceano,

Veja vir do Oriente

A nau com ouro, e com marfim indiano;

Veja o porto aferrado,

Chame-se embora bem-aventurado:

Nada d’isto apeteço;

Sabem os deuses, e por eles juro.

Que os votos que lhe of’reço.

Nascidos vem de coração mais puro;

Que estes bens não invejo.

Que levanto a mais alto o meu desejo.

Se nos serenos ares

Lhe vão suspiros meus, d’alma mandados;

Se deixo seus altares

De minhas puras lágrimas banhados;

Se os comovo à piedade.

Meus votos são por ti, santa amizade.

Deem-me fieis amigos,

Mostrem-se embora, em tudo o mais, irosos;

No meio dos castigos

Lhes chamarei benignos e piedosos:

Amigo verdadeiro,

Tu vales mais que o universo inteiro.