EM LOUVOR DA SAÚDE

By Nicolau Tolentino de Almeida

Não procura palácios suntuosos

A brilhante saúde;

O seu rosto agradável e risonho

Até aos reis se esconde:

Ela faz com que seja venturoso

O roto peregrino.

Se entre a negra gadelha lhe aparece

Um semblante sadio.

O cativo remeiro fatigado,

Do ardente sol não fuja:

Em ferros envolvido o duro corpo,

Trabalhe o dia inteiro.

O queimado semblante ande banhando

De violento suor:

Apressado mastigue, e poucas vezes,

O corrupto biscoito:

Mas tenha o rosto alegre e sossegado

Entre as duras prisões.

Se à pálida doença não tem visto

O macilento aspeito;

Se com braço membrudo e vigoroso

Força o remo pesado.

Inda sinto inflamar-me em teus louvores,

Oh saúde aprazível!

Tu és ilha do céu, mãe da alegria.

Dom de Deus piedoso.

Se os míseros mortais expõem a vida

Por danosas riquezas;

Por elas que fariam, se servissem

De te fazer propícia?

Filha do céu benigno, se te deras

Por ouro, ou fina prata,

Eu não temera as tempestuosas ondas

Do fervido oceano:

Nos ocultos sertões iria entrando

Co’a mesma cor no rosto;

Não me assustara o dente venenoso

Da enroscada serpente:

Do fértil oriente nos outeiros

(lavaria ansioso.

Por ver se das entranhas te trazia

Abundantes tesouros.

Mas a bela saúde é dom celeste;

Com ouro não se compra:

Ela foge dos ímpios, que se assentam

A saborosas mesas;

Que adormecem em leitos guarnecidos

De preciosas sedas;

E vai guardar, com provido cuidado,

O simples pescador,

Que sobre ásperas rochas, sem abrigo

Aos rigorosos tempos,

Vai nutrindo no corpo mal vestido

Um coração sincero;

Que humilde sabe erguer ao céu piedoso

As inocentes mãos.