EM OCCASIÃO DE FÉRIAS PASSOU O POETA À VIANNA, E ALI VIO HUMA PROCISSÃO, EM QUE ...
Por sua mão soberana
Deus, que é Pai de piedade,
Livre a toda a cristandade
da má Morte de Viana:
em vez de morte é pavana
morte composta de asneira,
porque tirar da parreira
quantas uvas vai brotando,
para lhas ir pendurando,
é morte de borracheira.
Ornar a morte a meu ver
de patas, por mais campar,
é querê-la namorar
por falta de outra mulher:
homens, que têm tal prazer,
que enfeitam toda uma ossada
de patas, e alfinetada,
é gente, que sem disputa
pertende em trajes de puta
dormir a morte enfeitada.
Isto de morte com patas,
e com uvas até os pés
(como disse um Vianês)
livre está de pataratas:
há gentes tão mentecaptas,
que se ocupam a enfeitar,
a quem os há de matar,
e lhe ponham todo o ouro
sem temer, que isto é agouro,
de que a morte os vem roubar.
Gente, que folga de ver
uma caveira enfeitada,
está é a morte folgada,
que em menmo ouvi dizer:
mas não me pode esquecer
asneira tão alta, e forte,
de uns bárbaros de má sorte,
e umas gentes insensatas,
que pondo a morte de patas,
cuidam, que empatam a morte.
Se Viana nisto dá
por fazer à morte festa,
convenho, que gente é esta,
que até a morte guardará:
mas que São Cristóvão vá
em charola de vaqueta
com coração de baeta,
e verde por mais decoro,
aqui se perde Isidoro
raivoso sobre alegrete.