EM OCCASIÃO DE FÉRIAS PASSOU O POETA À VIANNA, E ALI VIO HUMA PROCISSÃO, EM QUE ...

By Gregório de Matos Guerra

Por sua mão soberana

Deus, que é Pai de piedade,

Livre a toda a cristandade

da má Morte de Viana:

em vez de morte é pavana

morte composta de asneira,

porque tirar da parreira

quantas uvas vai brotando,

para lhas ir pendurando,

é morte de borracheira.

Ornar a morte a meu ver

de patas, por mais campar,

é querê-la namorar

por falta de outra mulher:

homens, que têm tal prazer,

que enfeitam toda uma ossada

de patas, e alfinetada,

é gente, que sem disputa

pertende em trajes de puta

dormir a morte enfeitada.

Isto de morte com patas,

e com uvas até os pés

(como disse um Vianês)

livre está de pataratas:

há gentes tão mentecaptas,

que se ocupam a enfeitar,

a quem os há de matar,

e lhe ponham todo o ouro

sem temer, que isto é agouro,

de que a morte os vem roubar.

Gente, que folga de ver

uma caveira enfeitada,

está é a morte folgada,

que em menmo ouvi dizer:

mas não me pode esquecer

asneira tão alta, e forte,

de uns bárbaros de má sorte,

e umas gentes insensatas,

que pondo a morte de patas,

cuidam, que empatam a morte.

Se Viana nisto dá

por fazer à morte festa,

convenho, que gente é esta,

que até a morte guardará:

mas que São Cristóvão vá

em charola de vaqueta

com coração de baeta,

e verde por mais decoro,

aqui se perde Isidoro

raivoso sobre alegrete.