EM TEMPO QUE GOVERNAVA ESTA CIDADE DA BAHIA O MARQUEZ DAS MINAS AJUIZA O POETA COM SUBTILEZA DE HOMEM SAGAZ, E ENTENDIDO O FOGO SELVAGEM, QUE POR MEYO DA URBANIDADE SE INTRODUZIO EM CERTA CASA.

By Gregório de Matos Guerra

Cansado de vos pregar

cultíssimas profecias,

quero das culteranias

hoje o hábito enforcar:

de que serve arrebentar,

por quem de mim não tem mágoa?

verdades direi como água,

porque todos entendais

os ladinos, e os boçais

a Musa praguejadora.

Entendeis-me agora?

O falar de intercadência

entre silêncio, e palavra,

crer, que a testa se vos abra,

e encaixar-vos, que é prudência:

alerta homens de Ciência,

que quer o Xisgaravis,

que aquilo, que vos não diz

por lho impedir a rudeza,

avalieis madureza,

sendo ignorância traidora.

Entendeis-me agora?

Se notais ao mentecapto

a compra do Conselheiro,

o que nos custa dinheiro,

isso nos sai mais barato:

e se da mesa do trato,

de bolsa, ou da companhia

virdes levar Senhoria

mecânicos deputados;

crede, que nos seus cruzados

sangue esclarecido mora.

Entendeis-me agora?

Se hoje vos fala de perna,

quem ontem não pôde ter

ramo, de quem descender

mais que o da sua taverna:

tende paciência interna,

que foi sempre D. Dinheiro

poderoso Cavalheiro,

que com poderes iguais

faz iguais aos desiguais,

e Conde ao vilão cad’hora.

Entendeis-me agora?

Se na comédia, ou sainete

virdes, que um D. Fidalgote

lhe dá no seu camarote

a xícara de sorvete:

havei dó do coitadete,

pois numa xícara só

seu dinheiro bebe em pó,

que o Senhor (cousa é sabida)

lhe dá a chupar a bebida,

para chupá-la num’hora.

Entendeis-me agora?

Não reputeis por favor,

nem tomeis por maravilha

vê-lo jogar a espadilha

co Marquês, co grão Senhor:

porque como é perdedor,

e mofino adredemente,

e faz um sangue excelente

a qualquer dos ganhadores,

qualquer daqueles Senhores

por fidalgo igual o adora.

Entendeis-me agora.