ENCARECE O POETA A GRAÇA E A BIZARRIA COM QUE SUA SENHORA DESEMBARCOU A SEUS OLH...

By Gregório de Matos Guerra

Esperando uma bonança,

cansado já de esperar

um pescador, que no mar

tinha toda a confiança:

receoso da tardança

de um dia, e mais outro dia

pela praia discorria,

quando aos olhos de repente

uma onda lhe pôs patente,

quanto uma ausência encobria.

Entre as ondas flutuando

um vulto se divisava,

sendo, que mais flutuava,

quem por ela está aguardando:

e como maior julgando

o tormento da demora

como se Leandro fora,

lançar-se ao mar pertendia,

quando entre seus olhos via

quem dentro em seu peito mora.

Mora em seu peito uma ingrata

tão bela ingrata, que adrede

pescando as demais com rede,

ela só com a vista mata:

as redes, de que não trata

vinha agora recolhendo;

porque como estava vendo

todo o mar feito uma serra,

vem pescar almas à terra,

de amor pescadora sendo.

Logo que à praia chegou,

tratou de desembarcar,

mas sair o sol do mar

só esta vez se admirou:

tão galharda enfim saltou,

que quem tão galharda a via,

justamente presumia,

para mais abono seu,

que era Vênus, que nasceu

do mar, pois do mar saía.

Pôs os pés na branca areia,

que comparada cos pés

ficou pez, em que lhe pes,

porque em vê-la a areia areia:

pisando a margem, que alheia

de um arroio os dois extremos,

todos julgamos, e cremos

Galatéia a Ninfa bela,

pois bem que vimos a Estrela,

fomos cegos Polifemos.

Toda a concha, e toda a ostrinha,

que na praia achou, a brio,

mas nenhum aljôfar viu,

que todos na boca tinha:

porém se em qualquer conchinha

pérolas o sol produz,

daqui certo se deduz,

que onde quer, que punha os olhos,

produz pérolas a molhos

pois de dois sóis logra a luz.

Em uma portátil silha

ocaso a seu sol entrou,

e pois tal peso levou,

não sentiu peso a quadrilha:

vendo tanta maravilha

tanta luz de monte a monte,

abrasar-se o Horizonte,

temi com tanto arrebol,

pois sobre as Pias do sol

ia o carro de Faetonte.