ENFERMOU ZELOSA A SUA ESPOSA DE UMA DOR DE GARGANTA E SANGRADA, LHE GALANTEIA O ...

By Gregório de Matos Guerra

Enfermou Clóri, Pastores,

picadinha de um desdém,

que até pagam as Deidades

tributos ao bem querer.

Mandou chamar o Barbeiro,

para picar-se outra vez,

que uma picada com outra

se vem a satisfazer.

Não quer Clóri, que lhe aplique

no braço, senão no pé,

que quem é tão soberana,

não dá seu braço a torcer.

Tomou-lhe o pé o Barbeiro,

para n’água lho meter,

e sendo a água tão pouca

lhe custou a tomar pé.

Água fria pediu logo,

parecendo-lhe talvez,

que com a quente pudesse

tanta neve derreter.

Desmaiou Clóri sentida

por o golpe lhe doer,

e à fé que custa o seu golpe

gotas de sangue verter.

Com sal na boca diverte

o desmaio desta vez:

mas boca de tanta graça

nenhum sal há de mister.

Que foi remédio supérfluo,

se deixa bem conhecer,

porque, quem é luz do mundo,

sal da terra deve ser.

Logrou aqui o Barbeiro

semelhanças de Moisés,

não da pedra tirar água

da neve em sangue escorrer.

Vingou Clóri no seu sangue

o agravo, que lhe fez,

que assim faz, que tão bom sangue,

se é de ilustre proceder.