ENFURECIDO O POETA DAQUELLES CIUMES DESCOMPOSTOS LHE FAZ ESTA HORRENDA ANATOMIA.
Vá de aparelho,
vá de painel,
venha um pincel
retratarei a Chica
e seu besbelho.
É pois o caso
que a arte obriga,
que pinte a espiga
da urtiga primeiro
e logo o vaso.
A negra testa
de cuiambuca
a põe tão cuca,
que testa nasce, e em cuia
desembesta.
Os dous olhinhos
com ser pequenos
são dois venenos,
não do mesmo tamanho
maiorzinhos.
Nariz de preta
de cocras posto,
que pelo rosto
anda sempre buscando
onde se meta.
Boca sacada
com tal largura,
que a dentadura
passeia por ali
desencalmada.
Barbinha aguda
como sovela,
não temo a ela,
mas hei medo à barba:
Deus me acuda.
Pescoço longo,
socó com saia,
a quem dão vaia
negros, com quem se farta
de mondongo.
Tenho chegado
ao meu feitio
do corpo esguio,
chato de embigo,
erguido a cada lado.
Peito lazeira
tão derribado,
que é retratado
ao peito espaldar
debaixo da viseira.
Junto as cavernas
tem as perninhas
tão delgadinhas,
não sei, como se tem
naquelas pernas.
Cada pé junto
forma a peanha,
onde se amanha
a estátua do pernil,
e do presunto.
Anca de vaca
mui derribada,
mais cavalgada,
que sela de rocim,
charel de faca.
Puta canalha,
torpe, e mal feita,
a quem se ajeita
uma estátua de trapo
cheia de palha.
Vamos ao sundo
de tão mau jeito,
que é largo, e estreito
do rosto estreito, e largo
do profundo.
Um vaso atroz,
cuja portada
é debruada
com releixos na boca,
como noz.
Horrível odre,
que pelo cabo
toma de rabo
andar são, e feder
a cousa podre.
Modos gatunos
tem sempre francos,
arranha os Brancos,
e afaga os membros só
dos Tapanhunos.
Tenho acabada
a obra, agora
rasguem-na embora,
que eu não quero ver Chica
nem pintada.