ENFURECIDO O POETA DAQUELLES CIUMES DESCOMPOSTOS LHE FAZ ESTA HORRENDA ANATOMIA.

By Gregório de Matos Guerra

Vá de aparelho,

vá de painel,

venha um pincel

retratarei a Chica

e seu besbelho.

É pois o caso

que a arte obriga,

que pinte a espiga

da urtiga primeiro

e logo o vaso.

A negra testa

de cuiambuca

a põe tão cuca,

que testa nasce, e em cuia

desembesta.

Os dous olhinhos

com ser pequenos

são dois venenos,

não do mesmo tamanho

maiorzinhos.

Nariz de preta

de cocras posto,

que pelo rosto

anda sempre buscando

onde se meta.

Boca sacada

com tal largura,

que a dentadura

passeia por ali

desencalmada.

Barbinha aguda

como sovela,

não temo a ela,

mas hei medo à barba:

Deus me acuda.

Pescoço longo,

socó com saia,

a quem dão vaia

negros, com quem se farta

de mondongo.

Tenho chegado

ao meu feitio

do corpo esguio,

chato de embigo,

erguido a cada lado.

Peito lazeira

tão derribado,

que é retratado

ao peito espaldar

debaixo da viseira.

Junto as cavernas

tem as perninhas

tão delgadinhas,

não sei, como se tem

naquelas pernas.

Cada pé junto

forma a peanha,

onde se amanha

a estátua do pernil,

e do presunto.

Anca de vaca

mui derribada,

mais cavalgada,

que sela de rocim,

charel de faca.

Puta canalha,

torpe, e mal feita,

a quem se ajeita

uma estátua de trapo

cheia de palha.

Vamos ao sundo

de tão mau jeito,

que é largo, e estreito

do rosto estreito, e largo

do profundo.

Um vaso atroz,

cuja portada

é debruada

com releixos na boca,

como noz.

Horrível odre,

que pelo cabo

toma de rabo

andar são, e feder

a cousa podre.

Modos gatunos

tem sempre francos,

arranha os Brancos,

e afaga os membros só

dos Tapanhunos.

Tenho acabada

a obra, agora

rasguem-na embora,

que eu não quero ver Chica

nem pintada.