Entre a luz e sombra

By João da Cruz e Sousa

Surge enfim o grande astro

Que se chama Liberdade!...

Dos sec’los na imensidade

Eterno perdurará!...

Como as dúlias matutinas

Que reboam nas colinas,

Nas selvas esmeraldinas

Em honra ao celso Tupá!...

Eram só cinéreas nuvens

Os brasíleos horizontes!

Curvadas todas as frontes

Caminhavam no descrer! —

As brisas nem murmuravam...

Os bosques nem soluçavam...

Os peitos nem se arroubavam...

— Estava tudo a morrer!...

De repente, o sol formoso

Vai as nuvens esgarçando.

As almas vão palpitando,

Cintilam magos clarões!...

E o Índio fraco, indolente

Fazendo esforço potente

Dos pulsos quebra a corrente,

Biparte os acres grilhões!...

Por terra tomba gemendo

O vão, atroz servilismo...

Rui a dobrez no abismo...

Eis a verdade de pé!...

Enfim!... exclama o silvedo

Enfim!... lá diz quase a medo

Selvagem, nu Aimoré!...

Assim, brasílea coorte,

Falange excelsa de obreiros,

Soberbos, calmos luzeiros

De nossa gleba gentil,

Quebrai os elos d’escravos

Que vivem tristes, ignavos,

Formando delas uns bravos

— P’Ra glória mais do Brasil!...

Lançai a luz nesses crânios

Que vão nas trevas tombando

E ide assim preparando

Uns homens mais p’ro porvir!

Fazei dos pobres aflitos

Sem crenças, lares, proscritos,

Uns entes puros, benditos

Que saibam ver e sentir!...

Do carro azul do progresso

Fazei girar essa mola!

Prendei-os sim, — mas à escola

Matai-os sim, — mas na luz!

E então tereis trabalhado

O negro abismo sondado

E em nossos ombros levado

Ao seu destino essa cruz!!...

Fazei do gládio alavanca

E tudo ireis derribando;

Dormi, co’a pátria sonhando

E tudo a flux se erguerá!

E a funda treva cobarde

Sentindo homérico alarde,

Embora mesmo que tarde

Curvada assim fugirá!...

Enfim!... os vales soluçam

Enfim!... os mares rebramam

Enfim!... os prados exclamam

Já somos livre nação!!...

Quebrou-se a estátua de gesso...

Enfim!... — mas não... estremeço,

Vacilo... caio, emudeço...

Enfim de tudo inda não!!...