ENTRE O DIZER O CALAR HÁ GUERRA VIVA EM MEU PEITO, O AMOR MANDA QUE FALE, QUE CA...
Senhora, dizer-vos tudo,
Quanto em mim sinto, desejo;
Porém, assim que vos vejo,
Deixa-me o respeito mudo;
Faço um cuidadoso estudo
Para sem susto falar;
Mas esse modesto olhar,
Que em vós, senhora, diviso,
Me deixa sempre indeciso
Entre o dizer e o calai’.
Uma chama viva e ardente
Abrasa o meu coração;
Se reprimo esta paixão,
Sou contra amor delinquente;
Dizê-la não m’o consente
Vosso inviolável respeito,
E assim com tirano efeito,
Porque sem remédio fique,
Sempre, ou me cale, ou m’explique,
Há guerra viva em meu peito.
Mas enfim, meu coração
Eu o abro sem temor,
Porque os delitos de amor
Tem de justiça o perdão;
Uma tão nobre paixão
Não é justo que eu a cale,
Já o respeito não vale,
Rompa-se o silencio mudo,
Sim, sim, que apesar de tudo
O amor manda que fale.
Porém eu tremo, eu duvido,
Tímida a boca o não diz,
Seja eu sempre infeliz.
Mas não pareça atrevido:
Tem de estar sempre escondido
Este amor dentro em meu peito,
Que importa que o seu efeito
Me obrigue a desafogar,
Se quando quero falar,
Que cale, diz o respeito?