EPICÉDIO I

By Cláudio Manuel da Costa

A ti me chego, ó Mausoléu sagrado,

De um alto Herói depósito adorado,

Permite que aos impulsos do gemido,

Das lágrimas, dos ais, corra advertido

A venerar as cinzas que sepultas.

Sei que ambicioso uma relíquia ocultas

Do mais raro Varão, que aponta a história

Nos eternos volumes da memória.

Daquele, que proposto como espelho

De uma inteira virtude, no conselho,

Na execução, mostrou que unir sabia

As leis da temperança e da valia,

Sustentando por modo estranho e raro

Do Monarca o amor, do povo o amparo.

Sei que guardas (eu digo) nas entranhas

O generoso braço, que às campanhas

Deu assombro e terror; sei (porque tudo

Explique de uma vez) que no horror mudo

Desse cofre soberbo a estranha dita

De um Andrada imortal se deposita;

Que no busto fatal a estampa grata

Do mais distinto Freire se retrata;

Que se guarda e se adora a imagem bela

Desse Conde feliz de Bobadela.

Ao romper o clamor das tristes vozes,

Ao soltar estas cláusulas velozes,

Oh! qual eco de dor, de pena, e pranto

Se vê corresponder a impulso tanto!

Em lágrimas se rompe o peito aflito:

De sombras veste o Céu; ao triste grito

Soluça o ar, os elementos gemem;

Todos da terra os fundamentos tremem;

E parece que a fúnebre saudade

Não encontra na vasta imensidade

De um mundo, que compreende, aquela esfera,

Que para o desafogo achar quisera.

Mas que muito, que ao lúgubre gemido

Se altere e cresça o universal ruído,

Se perde Portugal, se o mundo perde

Aquela sempre firme, sempre verde

Rama da heroicidade transtagana!

Se enfim de toda a glória lusitana

Um só Herói, que enchera o fasto inteiro,

Hoje vem a jazer por derradeiro

Deste calado horror no abrigo triste!

Aqui todo o valor de Marte assiste;

Aqui jaz todo o alento da piedade;

Aqui o desempenho da lealdade,

O magnífico, o sábio, o reto, o ativo,

O liberal, constante, discursivo,

Prudente, valeroso: ah! que a tal brado

Confunde-se a razão, pasma o cuidado!

Amplificar a esplêndida figura

De seus dotes quisera; abra a escultura

Dos pórticos a Fama; os olhos entrem;

Registem as estampas; reconcentrem

A longa admiração: desde a corrente

Do cristalino Tejo, oh! que valente

Neste quadro respira! Aqui, tingindo

Do sangue ibero as preciosas veias,

Roxas tornando as pálidas areias,

Une de Portugal ao cetro egrégio

Tantos novos troféus; o privilégio

De seu braço imortal quanto se aclama,

Quando em Campo Maior o cinge a rama,

Por triunfar co’as lusitanas Quinas!

Tu, soberba Castela, entre as ruínas

De teus muros o choras, o teu susto

Lá lhe soube tecer o louro augusto,

Com que apesar de tanto pranto e mágoas,

Enobreceu do Guadiana as águas.

Esse ferro, que agora dependura

Tinto de sangue a Fama, te assegura,

Aflito Portugal, as leis e o trono.

Da tua permanência o eterno abono

Deves àquela espada; ela se ensaia

Nos ilustres Avós: qual em Cambaia

O seu nome deixou! qual em Quiloa

Debuxa o seu brasão! Lá vive em Goa

A memória do sangue: honrado emblema

São de tanta virtude em nobre lema,

Entre as chamas dos bélicos alfanjes,

As ânsias do Indo, as lágrimas do Ganges.

Feliz, ó Portugal, feliz mil vezes

Tu, que para esplendor dos Portugueses

Deste ferro a memória tens guardado!

Se queres ser no mundo respeitado

Pela virtude, outro brasão não tomes,

Que ser Pátria dos Freires e dos Gomes.

Quem haverá que a competir se atreva,

Quando (porque imortal ouvir se deva)

Desde o teu berço este pregão respire!

Eu te prometo que por mais que gire

O Planeta da luz, outro portento,

Outra estirpe maior em todo o alento

Da fama se não logre: aqui se estende,

Aqui se alcança, aqui se compreende

Tudo quanto por glória, e por vaidade,

Engrandece o esplendor da heroicidade.

Mil séculos, e mil se tem passado,

Desde que o Céu com próvido cuidado

Vem lavrando a feliz genealogia

De Varões tão fiéis: a Monarquia

Os honra no solar de Bobadela

Em um Nuno, um Bermudes, um Fruela,

Um Rodrigo, um Forjaz, Peres, Fernandes,

Um Mendes, um Pauzona, e outros Grandes,

Que apontam com espíritos sublimes

A Desidério, Rei dos Longobardos.

Estes os imortais progenitores,

Que intimando no exemplo dos suores

A imitação de um Freire, em glória estranha

Enchem a Portugal, a Itália, e Espanha,

As Barras inculcando por divisa

No brasão, que o seu nome soleniza.

Mas como em um só quadro me detenho,

Admirando o valor, se o desempenho

De outras tantas virtudes tem chegado

A encher da Fama o generoso brado!

Fale a acorde harmonia, com que o vejo

Temperando o governo: aqui do Tejo

A Nau soberba se desata, aonde

O valeroso espírito se esconde,

Que ao antártico clima foi mandado

A governar todo o País dourado.

Este é das Minas, este o áureo hemisfério,

Nobre porção do lusitano Império:

Aqui, ó Rei, ao meu Herói confias

As rédeas do governo. De teus dias

A dilatar o esplêndido progresso

Terias outro abono! Eu não conheço

Vê qual desinteresse o acredita

Digno de teu favor: entre a esquisita

Cópia de tanto Ofir, a prata, o ouro,

O topázio, as safiras, o tesouro

Dos diamantes, que a terra desentranha,

Não sabem conceber a empresa estranha

De atrair-lhe a ambição; ao seu desprezo

Serve apenas de objeto o raio aceso

Do precioso metal; a alma se cria

Com tão nobre, louvável rebeldia,

Que nada menos a molesta e cansa

Que sustentar a sólida aliança

Que fez com a justiça: este progresso

Ganha em teu peito o luminoso apreço

De um vassalo fiel, nele guardando

De três governos repartido o mando

O Rio de Janeiro lhe obedece;

De São Paulo o empório reconhece

A alta moderação; e as Minas douro

Se esclarecem, tecendo o fausto agouro.

Mas oh! e com que inteiro movimento

A propagar do cetro o régio aumento,

Apesar do trabalho, a mão se aplica,

Quando o peso se dobra, ou se triplica!

Como a sagrada lei primeiro objeto

É da sua intenção, o alto projeto

De encher a obrigação do cargo ilustre

Quanto na execução lhe esforça o lustre!

De Nêmesis, parece que a balança

Nunca teve outro ponto; a segurança

Do fiel observou tão finamente,

Que se o digno se alegra, o delinquente

Não acusa o castigo: a pena, o prêmio,

Achando na justiça igual o grêmio,

Saíam dentre as mãos tão bem pesados,

Que se viram talvez equivocados

O prazer e a dor: louva o aflito

A justa punição do seu delito;

E chora o benemérito, no susto

De não ser imortal Herói tão justo

Pronto o despacho, a súplica atendida,

Castigada a maldade, agradecida

A retidão, a idéia vigilante

Não conhece repouso um só instante:

Enfim o seu descanso, o seu sossego

É só a instância do zeloso emprego.

Oh! que estranha se inculca a nobre idéia

Deste saudoso Herói! Tanto de Astréia

O espírito igualou, que ao Rei, ao povo

Soube conciliar por modo novo.

O vasto empório das douradas Minas

Por mim o falará: quando mais finas

Se derramam as lágrimas no imposto

De uma capitação, clama o desgosto

De um País decadente; e ao seu gemido

Se enternece piedoso o esclarecido,

O generoso Herói: ao Soberano

Conduz a queixa, representa o dano.

Chega o remédio pela mão piedosa,

Ministra do favor; menos penosa

Já se modera a imposição: contente

Já ri o povo, já se alegra a gente.

Lisonjeiro o prazer cada um descobre,

Os pequenos, o grande, o rico, o pobre.

Ó alma grande! Ó alma esclarecida!

Digna de ser guardada, ser nutrida

Na pompa dos Elísios, entre os belos

Espíritos dos Élios, dos Metelos,

Dos Cipiões, Temístocles, Zopiros

E outros, que em felicíssimos retiros

Gozando estão as auras lisonjeiras,

Em prêmio desse amor, com que as primeiras

Fadigas de um solícito cuidado

Pelo Rei, pela Pátria hão consagrado.

Estes os frutos são dessa doutrina,

Que bebeste na cândida oficina

De uma ética inata: ali se alcança

Aquela inalterável confiança,

Que em ti sabes firmar, mostrando ao mundo,

Com desprezo da inveja, o mais profundo,

Positivo esplendor, que te reserva,

Superior à emulação proterva.

Que importa que de estrada dissonante,

Seguindo outros talvez o curso errante,

Assegurar pertendam sobre o trono

De um alto valimento o régio abono,

Se essa idéia injustíssima que os guia,

Estragando os desígnios, algum dia

Fará gemer com lástima importuna

O mal seguro alento da fortuna!

A idéia mais feliz de ser aceito

À vontade de um Rei é ter o peito

Sempre animado de um constante impulso

De amar o que for justo: este acredita

Ao servo, que obedece; felicita

Ao Rei, que manda; este assegura a fama;

Este extingue a calúnia, e apaga a chama,

De um ânimo perverso, que atropela

O precioso ardor de uma alma bela.

Pelos degraus desta feliz escada,

Subiste, ó Freire excelso: ao braço, à espada,

Ou na civil Minerva, ou na Castrense,

Há um Rei, que as fadigas te compense.

Triplica-te o governo; honra-te o cargo;

Teus méritos confessa; um campo largo

Aos prêmios abre; a General te chama;

Te fia os seus exércitos; te aclama

Na régia comissão seu substituto.

De tão alta virtude o egrégio fruto

Respira enfim no esplêndido apelido,

Título grande, sim; mas tão devido,

Que inda que teus serviços ornar venha,

Cuido que a régia mão não desempenha.

Não te faz grande o Rei: a ti te deves

A glória de ser grande; tu te atreves

Somente a te exceder; outro ao Monarca

Deva o título egrégio, que o demarca

Entre os Grandes por Grande; em ti louvado

Só pode ser o haver-te declarado.

Mas que muito, que a tanto Herói assista

Este influxo feliz, se ele conquista

Com seus braços o Céu! ele desata

Com a mão liberal a cópia grata

De tantos cabedais: é confiado

Menos o soldo, para o nobre estado,

Que para sustentar com régio empenho

Do coração devoto o desempenho.

A dispêndios do ardor, que a alma respira,

Ali aquele pórtico se admira,

Por onde se abre ao mundo a excelsa entrada

De uma casa, que a Deus é consagrada.

Têm de Teresa as religiosas filhas

Ali um santo abrigo: as maravilhas

De um zelo nunca visto ali se inculcam.

Buscas o Autor da nobre arquitetura?

Queres saber quem ergue essa estrutura,

O dórico, o coríntio frontispício?

Esse mármore o diga: mas o indício

Na pedra se não grava: oh! que a piedade

Lhe encurtou esse alento na vaidade!

Foi providência, não foi erro: ignora

Esse mármore egrégio a mão que o fora

Desentranhando desde a terra dura,

Que o erguera e polira. O Herói procura

Que se esconda o seu nome. Em glória tanta

O seu mesmo silêncio é quem o canta.

Vê que o dogma evangélico encomenda

Que a direita co’a esquerda não se entenda:

E esta máxima tanto a Freire agrada,

Que até com Deus a deixa praticada.

Deu a Deus só por Deus: ao padrão sobra

Saber que a Deus é consagrada a obra.

E quem (oh! Céus!), quem há que não presuma

Educado este espírito na suma,

Penitente fadiga dos desertos!

Quem há que estes estímulos despertos

Não julgue na Tebaida mais austera!

Mas oh! quanto a virtude mais se esmera,

Lá cultivada desde a tenra idade,

Entre a perversa, mísera vaidade

Da militar licença, onde se apura

Toda a relaxação, toda a soltura!

Outro talvez de escola, que é tão fera,

Razão de seus escândalos trouxera:

Só acha Gomes da virtude a chama

No mavórcio exercício; ali se inflama

Na alta meditação de um pensamento,

Que só em Deus contempla o fundamento

De toda a humana glória: na vigia,

Nos sítios, nos ataques, na porfia

Dos choques, dos assédios, lá protesta

Que a mão é só de Deus; nada lhe resta

Que esperar de si mesmo: neste estudo

Tudo se logra, se prospera tudo.

Não me suspenda deste templo o objeto;

Discorra a admiração: o ardente afeto,

Com que se entrega ao Céu, que bem se explica

Nessas casas de Deus! ele se aplica

A Protetor da caridade santa.

Com seu fervor congregações levanta,

Onde aos pobres assista. O Pão Sagrado

Se ministra aos enfermos; acha o aflito

No cárcere o favor, para o delito

Se deputa Advogado; ao morto acode

Com o supremo ofício a mão piedosa.

Tu, Vila Rica, tu, a mais saudosa,

Nessa casa de Deus, que hoje sustentas,

O choras, o suspiras, o lamentas.

Tu o choras, ó mundo: mas que digo!

O Céu o chora, o Céu: que o braço amigo

Não fez mais grato o mundo, que fizera

Agradecido o Céu: ele quisera

Este Herói imortal; a lei sagrada

Da Providência, a lei sempre adorada

É quem o rouba da ventura nossa,

Quem de nós o separa, sem que possa

Suspender-se a si mesma: é Providência;

Mas que digo! é decreto; é obediência.

E quem sabe se lá no eterno seio

Das idades futuras (não o creio),

Quem sabe se apesar da estranha inveja

Outra alma tornará, onde se veja,

Para consolação desta ânsia aguda,

A virtude exemplar, que aqui se estuda!

Em que tão largos séculos prepara

O Céu uma alma grande! O Tejo o diga

Se de Heróis lusitanos na fadiga

Deu à Fama, em idade dilatada,

Outro Freire, outro Gomes, outro Andrada.

Consolação pesada eu te proponho,

Ó Reino, em tal memória: sei que choras

Os breves dias, as ligeiras horas,

Que lhe cortou o próvido destino.

Ah! se o viras no susto intercadente

Do mortal desalento! o pranto infausto

Se convertera em júbilo. O holocausto

De uma alma pura ele feliz votava

Ao Criador eterno, e se abraçava

Com a celeste imagem de Teresa.

Dos amigos, dos servos a tristeza

Em melhor sorte converter queria.

O alento pouco e pouco se extinguia;

E seguro da empresa... ah! que emudeço!

Eu pasmo; eu tremo; eu choro; eu desfaleço.

Já roto, já quebrado o nobre escudo,

Guarda o Gênio o brasão: entre o horror mudo

O Templo de Teresa já demanda

Conduzido o cadáver; surda e branda

Se ouve a harmonia do tambor guerreiro;

Arrastam-se as bandeiras; pregoeiro

É o rouco metal; o pó sulfúreo

Em salvas se dispende: uma ânsia interna

A pompa funeral rege e governa.

Cingido dos Brandões, que a mágoa sofre,

Prossegue logo em um dourado cofre

O ilustre coração. Oh! quanto é digno

De respirar eterno o ardor benigno

Que o nutriu, que o gerou! penhor sagrado,

Do caráter de um Freire fiel traslado!

Deva ao bálsamo, deva o benefício

De triunfar do infausto precipício

Dos anos, nele achando a atividade,

Que não pôde encontrar na humanidade.

Não pode, excelso Herói, não pode esta ânsia

Permitir mais esforços à constância.

A registar de todo não me atrevo

O Templo, que busquei; a cifra escrevo,

Porque o mundo jamais de ti se esqueça:

Aqui jaz... mas que digo! aqui começa

A nascer a virtude: não se apaga

Uma ilustre memória; não se estraga

Uma excelsa relíquia; antes mais templos

Se produzem da vida dos exemplos.

Oh! que enganadamente solicito

Achar letra que explique aquele invicto

Espírito, que choro: em vão se atenda

O risco, que lavrei. Tudo se emenda,

Tudo já se desfaz. Se o néscio intento

Eternizar procura o monumento,

Seja túmulo o mundo. A cobertura

Seja o Céu: honre a esplêndida figura

Das faixas toda a luz, a impulso tanto,

Suspiro o fogo, e oceano o pranto.