EPICÉDIO II

By Cláudio Manuel da Costa

Espírito imortal, tu que rasgando

Essa esfera de luzes, vais pisando

Do fresco Elísio a região bendita,

Se nesses campos, onde a glória habita,

Centro do gosto, do prazer estância,

Entrada se permite à mortal ânsia

De uma dor, de um suspiro descontente,

Se lá relíquia alguma se consente

Desta cansada, humana desventura,

Não te ofendas, que a vítima tão pura,

Que em meus ternos soluços te ofereço,

Busque seguir-te, por lograr o preço

Daquela fé, que há muito consagrada

Nas aras da amizade foi jurada.

Bem sabes, que o suavíssimo perfume,

Que arder pode do amor no casto lume,

Os suores não são deste terreno,

Que odorífero sempre, e sempre ameno,

Em coalhadas porções Chipre desata:

Mais que os tesouros, que feliz recata

A arábica região, amor estima

Os incensos, que a fé, que a dor anima,

Abrasados no fogo da lembrança.

Esta pois a discreta segurança,

Com que chega meu peito saudoso,

A acompanhar teu passo venturoso,

Oh sempre suspirado, sempre belo,

Espírito feliz: a meu desvelo

Não negues, eu te rogo, que constante

Viva a teu lado sombra vigilante.

Inda que estejas de esplendor cercada,

Alma feliz, na lúcida morada,

Que na pompa dos raios luminosa

Pises aquela esfera venturosa,

Que a teu merecimento o Céu destina;

Nada impede, que a chama peregrina

De uma saudade aflita, e descontente,

Te assista acompanhando juntamente.

Antes razão será, que debuxada

Em meu tormento aquela flor prostrada,

Sol em teus resplendores te eternizes,

E Clície em minha mágoa me divises;

Entre raios crescendo, entre lamentos,

Em mim a dor, em ti os luzimentos.

Se porém a infestar da Elísia esfera

A contínua, brilhante primavera

Chegar só pode o lastimoso rosto

Deste meu triste, fúnebre desgosto,

Eu desisto do empenho, em que deliro;

E as asas encurtando a meu suspiro,

Já não consinto, que seu vôo ardente

A acompanhar-te suba diligente:

Antes no mesmo horror, na sombra escura

Da minha inconsolável desventura

Eu quero lastimar meu fado tanto,

Que sufocado em urnas de meu pranto,

A tão funesto, líquido dispêndio,

A chama apague deste ardente incêndio.

Indigno sacrifício de uma pena,

Que chega a perturbar a paz serena

De umas almas, que em campos de alegria

Gozam perpétua luz, perpétuo dia;

Que adorando a concórdia, desconhecem

Os sustos, que da inveja os braços tecem;

Que ignoram o rigor do frio inverno;

E que em brando concerto, em jogo alterno

Gozam toda a suavíssima carreira

De uma sorte risonha, e lisonjeira.

Ali, entre os favônios mais suaves,

A consonância ofenderei das aves,

Que arrebatando alegres os ouvidos,

Discorrem entre os círculos luzidos

De toda a vegetante, amena estância.

Ali pois as memórias de minha ânsia

Não entrarão, Salício: que não quero

Ser contigo tão bárbaro, e tão fero,

Que um bem, em cuja posse estás ditoso,

Triste magoe, infeste lastimoso.

Cá vivera comigo a minha pena,

Penhor inextinguível, que me ordena

A sempre viva, e imortal lembrança.

Ela me está propondo na vingança

De meu fado inflexível, ó Salício,

Aquele infausto, trágico exercício,

Que os humanos progressos acompanha.

Quem cuidara, que fosse tão estranha,

Tão pérfida, tão ímpia a força sua,

Que maltratar pudesse a idade tua,

Adornada não só daquele raio,

Que anima a flor, que se produz em maio;

Mas inda de frutíferos abonos,

Que antecipa a cultura dos outonos!

Cinco lustros o Sol tinha dourado

(Breves lustros enfim, Salício amado),

Quando o fio dos anos encolhendo,

Foi Átropos a teia desfazendo:

Um golpe, e outro golpe preparava:

Para empregá-lo a força lhe faltava;

Que mil vezes a mão, ou de respeito,

De mágoa, ou de temor, não pôs o efeito.

Desatou finalmente o peregrino

Fio, que já tecera. Ah se ao destino

Pudera embaraçar nossa piedade!

Não te glories, trágica deidade,

De um triunfo, que levas tão precioso:

Desar é de teu braço indecoroso;

Que inda que a fúria tua o tem roubado,

A nossa dor o guarda restaurado.

Vive entre nós ainda na memória,

A que ele nos deixou, eterna glória;

Dispêndios preciosos de um engenho,

Ou já da natureza desempenho,

Ou para a nossa dor só concedido.

Salício, o pastor nosso, tão querido,

Prodígio foi no raro do talento,

Sobre todo o mortal merecimento;

E prodígio também com ele agora

Se faz a mágoa, que o lastima e chora.

A lutuosa vítima do pranto

Melhor, que o imarcescível amaranto,

Te cerca, ó alma grande, a urna triste;

O nosso sentimento aqui te assiste,

Em nênias entoando magoadas

Hinos saudosos, e canções pesadas.

Quiséramos na campa, que te cobre,

Bem que o tormento ainda mais se dobre,

Gravar um epitáfio, que declare,

Quem o túmulo esconde; e bem que apare

Qualquer engenho a pena, em nada atina.

Vive outra vez: das cinzas da ruína

Ressuscita, ó Salício; dita; escreve;

Seja o epitáfio teu: a cifra breve

Mostrará no discreto, e no polido,

Que é Salício, o que aqui vive escondido.