EPICÉDIO III
Comigo falas; eu te escuto; eu vejo
Quanto apesar de meu letargo, e pejo,
Me intentas persuadir, ó sombra muda,
Que tudo ignora quem te não estuda.
Há poucas horas que um ativo alento
Te dirigia o ardente movimento,
E em breve instante (oh! dor!), em breve instante
Se torna em luto o resplendor brilhante.
Arrebatado em vão te solicito
Por qualquer parte que se estenda o grito,
E aos ecos, ao clamor, que aos troncos passa
(Funestíssimo aviso da desgraça)
Apenas fala, apenas me responde
O desengano, que esta penha esconde.
Mas como em te encontrar minha ânsia tarda,
Se só este penhasco é quem te guarda!
Ele a saudade tua recomenda,
Ele me escute, pois, ele me atenda.
Mármore bruto, que em teu seio encobres
Triste despojo de relíquias pobres,
Eu me chego a escutar-te: a ouvir-te venho,
Talvez de tanto ardor no heróico empenho,
Ao crédito maior esta alma aspira.
Se enlaçado nas redes da mentira
Amei té agora o meu profundo sono,
De tanto anúncio ao peregrino abono,
Eu quero despertar: volta a falar-me,
Ó dura penha, eu quero aconselhar-me
Contigo mesmo. Que lições prudentes
Hoje me estás ditando! Oh! que eloquentes
Falam as sombras, os horrores falam,
Quando os alentos, quando as vozes calam!
Dentro sepultas desse cofre infausto
De Aônio o resplendor, o lustre, o fausto.
Debaixo jaz dessa fatal dureza
Aquele ativo engenho, que a destreza
De Minerva poliu; o que esgotara
D’alta jurisprudência a luz mais rara.
Aqui sepultas, ó penhasco duro
(Tudo te digo), aquele Amigo puro,
Que ausente de minha alma hoje me ordena
A companhia só da minha pena.
No teu silêncio encontro o desengano
Do caduco esplendor do alento humano.
Tu me dizes quão pouco ao mundo importa
Esta cansada vida que suporta
Das fadigas o peso intolerável.
Venturoso Baixel em golfo instável
Me finges, me figuras: brando o vento
Ordenava a carreira; solto o alento
Das velas respirava a Nau segura;
Tranquilo o mar com próspera brandura
Sustentava o seu peso: no acidente
De ingrata tempestade de repente
Se escandeliza o Céu; o mar se altera;
Rompem-se as velas; pela crespa esfera
Vaga perplexo o lenho, absorto vaga;
Já perde o rumo, e infeliz naufraga.
E que se espera entre a fatal ruína?
Que mais se espera? Se da luz benigna
Se desperdiça o breve auxílio, ao menos
Enquanto a nós os Zéfiros serenos
Nos influem propícios, indeciso
Não vacile o discurso; o obséquio, o riso
Deste mísero golfo se aproveite,
Abominando os vícios, e o deleite
De tanto ardor profano: a razão venha,
E vendo que no abismo se despenha,
De seus mesmos horrores triunfante,
Sobre tanto desmaio o ardor constante
Da antiga Babilônia, que se estraga,
Novos alentos das ruínas traga.
Tudo, ó bruto penhasco, me insinua
O teu mesmo silêncio, a sombra tua.
E pois te encontro agora tão propício,
Só te quero rogar o benefício
De que ao triste cadáver alguma hora
A ânsia ardente com que esta alma o chora,
Por último favor, lhe comuniques.
Peço-te que de todo o certifiques
Do muito que o lastimo; e se há piedade
Nessa estranha região, chegue a saudade
Que te consagro, ô extremoso Amigo,
Sempre a viver, sempre a morrer contigo.