EPICÉDIO III

By Cláudio Manuel da Costa

Comigo falas; eu te escuto; eu vejo

Quanto apesar de meu letargo, e pejo,

Me intentas persuadir, ó sombra muda,

Que tudo ignora quem te não estuda.

Há poucas horas que um ativo alento

Te dirigia o ardente movimento,

E em breve instante (oh! dor!), em breve instante

Se torna em luto o resplendor brilhante.

Arrebatado em vão te solicito

Por qualquer parte que se estenda o grito,

E aos ecos, ao clamor, que aos troncos passa

(Funestíssimo aviso da desgraça)

Apenas fala, apenas me responde

O desengano, que esta penha esconde.

Mas como em te encontrar minha ânsia tarda,

Se só este penhasco é quem te guarda!

Ele a saudade tua recomenda,

Ele me escute, pois, ele me atenda.

Mármore bruto, que em teu seio encobres

Triste despojo de relíquias pobres,

Eu me chego a escutar-te: a ouvir-te venho,

Talvez de tanto ardor no heróico empenho,

Ao crédito maior esta alma aspira.

Se enlaçado nas redes da mentira

Amei té agora o meu profundo sono,

De tanto anúncio ao peregrino abono,

Eu quero despertar: volta a falar-me,

Ó dura penha, eu quero aconselhar-me

Contigo mesmo. Que lições prudentes

Hoje me estás ditando! Oh! que eloquentes

Falam as sombras, os horrores falam,

Quando os alentos, quando as vozes calam!

Dentro sepultas desse cofre infausto

De Aônio o resplendor, o lustre, o fausto.

Debaixo jaz dessa fatal dureza

Aquele ativo engenho, que a destreza

De Minerva poliu; o que esgotara

D’alta jurisprudência a luz mais rara.

Aqui sepultas, ó penhasco duro

(Tudo te digo), aquele Amigo puro,

Que ausente de minha alma hoje me ordena

A companhia só da minha pena.

No teu silêncio encontro o desengano

Do caduco esplendor do alento humano.

Tu me dizes quão pouco ao mundo importa

Esta cansada vida que suporta

Das fadigas o peso intolerável.

Venturoso Baixel em golfo instável

Me finges, me figuras: brando o vento

Ordenava a carreira; solto o alento

Das velas respirava a Nau segura;

Tranquilo o mar com próspera brandura

Sustentava o seu peso: no acidente

De ingrata tempestade de repente

Se escandeliza o Céu; o mar se altera;

Rompem-se as velas; pela crespa esfera

Vaga perplexo o lenho, absorto vaga;

Já perde o rumo, e infeliz naufraga.

E que se espera entre a fatal ruína?

Que mais se espera? Se da luz benigna

Se desperdiça o breve auxílio, ao menos

Enquanto a nós os Zéfiros serenos

Nos influem propícios, indeciso

Não vacile o discurso; o obséquio, o riso

Deste mísero golfo se aproveite,

Abominando os vícios, e o deleite

De tanto ardor profano: a razão venha,

E vendo que no abismo se despenha,

De seus mesmos horrores triunfante,

Sobre tanto desmaio o ardor constante

Da antiga Babilônia, que se estraga,

Novos alentos das ruínas traga.

Tudo, ó bruto penhasco, me insinua

O teu mesmo silêncio, a sombra tua.

E pois te encontro agora tão propício,

Só te quero rogar o benefício

De que ao triste cadáver alguma hora

A ânsia ardente com que esta alma o chora,

Por último favor, lhe comuniques.

Peço-te que de todo o certifiques

Do muito que o lastimo; e se há piedade

Nessa estranha região, chegue a saudade

Que te consagro, ô extremoso Amigo,

Sempre a viver, sempre a morrer contigo.