EPÍSTOLA

By Laurindo José da Silva Rabelo

Se dessa nobre irmã, que as mais domina,

Que de gala e de pompa revestida

Majestosa nos ares se reclina:

De tudo quanto há belo enriquecida,

Coberta pelo azul de um céu brilhante,

De sempre verdes prados guarnecida;

Cujos pórticos guarda vigilante

De dia e noite imóvel sentinela,

Um disforme e grandíssimo gigante;

Que tão soberba em forma se revela,

Como amável no trato hospitaleiro

Com que abraça a quem vive à sombra dela;

Se desse pátrio ninho, onde primeiro

Vimos ambos a luz, inda é lembrado

Daquele solo o filho derradeiro;

Ou se em todas as mentes apagado,

Pelo buril eterno d’amizade

Seu nome inda na tua está lembrado;

Recebe nesta um culto de saudade,

De afeto, e desse afeto que termina

Onde encontra seu termo a eternidade;

Desse afeto do céu, que não fascina,

Sol brilhante nos dias de ventura,

Nas dores, da desgraça medicina;

No que te digo vai verdade pura;

As linhas que te escrevo, Brito, amigo,

São alívios à dor que me tortura!

Aqui, por mais que busque, não consigo

Ter por minha de tantas uma hora

Igual àquelas que passei contigo!

Tédio enfadonho tudo me descora;

Marca-me o tempo lentamente a vida,

Que aos outros entes rápido devora!

Parti... e, nessa hora da partida

(Não sei se foi meu corpo, se minh’alma),

Porém um fez do outro a despedida!

Dizem que com o tempo a dor se acalma;

Mas a amante, a quem tal bem sucede,

Ao verdadeiro amante ceda a palma.

Quando a vista ansiosa o espaço mede,

E a imagem divinal do bem perdido

Em vão à terra, ao mar e aos astros pede;

Quando, da perda infausta convencido,

Chega a crer que partiu, a crer n’ausência,

Que já não tem presente o bem querido;

Quando, cedendo à força da evidência,

Nem lhe resta uma nuvem de esperança

Para os olhos vendar da consciência;

Não é decerto um tempo de bonança!

Longe a certeza acorda a tempestade,

Que perto sobre a dúvida descansa!

E quanto mais conhece-se a verdade,

Mais funda, mais pungente e mais dorida,

Se vai abrindo a chaga da saudade!...

É esta aqui, meu Brito, a minha vida!

Nem exagera a pena meu tormento,

Em poéticas tintas embebida!

Tenho n’alma um cruel pressentimento

(Talvez não mui remota profecia

Que não posso apagar do pensamento!)

Espero cedo o meu extremo dia;

E a morte, da pátria tão distante,

É quadro que me abate de agonia!

A saudade tornou-me tolerante!

Que importa ser da pátria desprezado?

Serei sempre da pátria filho amante.

Se outrora, contra ela conspirado,

Os males que me fez lancei-lhe em rosto,

Hoje tudo lhe tenho perdoado.

Dos lances em que a sorte me tem posto

Esquecido, o desgosto de não vê-la

É dos desgostos meus maior desgosto!

Ah! que não fosse a hora de perdê-la,

A hora em que parti!... O sul formoso

É belo, benfazejo, é lar ditoso:

Mas eu tenho no Norte a minha estrela!