EPÍSTOLA
Se dessa nobre irmã, que as mais domina,
Que de gala e de pompa revestida
Majestosa nos ares se reclina:
De tudo quanto há belo enriquecida,
Coberta pelo azul de um céu brilhante,
De sempre verdes prados guarnecida;
Cujos pórticos guarda vigilante
De dia e noite imóvel sentinela,
Um disforme e grandíssimo gigante;
Que tão soberba em forma se revela,
Como amável no trato hospitaleiro
Com que abraça a quem vive à sombra dela;
Se desse pátrio ninho, onde primeiro
Vimos ambos a luz, inda é lembrado
Daquele solo o filho derradeiro;
Ou se em todas as mentes apagado,
Pelo buril eterno d’amizade
Seu nome inda na tua está lembrado;
Recebe nesta um culto de saudade,
De afeto, e desse afeto que termina
Onde encontra seu termo a eternidade;
Desse afeto do céu, que não fascina,
Sol brilhante nos dias de ventura,
Nas dores, da desgraça medicina;
No que te digo vai verdade pura;
As linhas que te escrevo, Brito, amigo,
São alívios à dor que me tortura!
Aqui, por mais que busque, não consigo
Ter por minha de tantas uma hora
Igual àquelas que passei contigo!
Tédio enfadonho tudo me descora;
Marca-me o tempo lentamente a vida,
Que aos outros entes rápido devora!
Parti... e, nessa hora da partida
(Não sei se foi meu corpo, se minh’alma),
Porém um fez do outro a despedida!
Dizem que com o tempo a dor se acalma;
Mas a amante, a quem tal bem sucede,
Ao verdadeiro amante ceda a palma.
Quando a vista ansiosa o espaço mede,
E a imagem divinal do bem perdido
Em vão à terra, ao mar e aos astros pede;
Quando, da perda infausta convencido,
Chega a crer que partiu, a crer n’ausência,
Que já não tem presente o bem querido;
Quando, cedendo à força da evidência,
Nem lhe resta uma nuvem de esperança
Para os olhos vendar da consciência;
Não é decerto um tempo de bonança!
Longe a certeza acorda a tempestade,
Que perto sobre a dúvida descansa!
E quanto mais conhece-se a verdade,
Mais funda, mais pungente e mais dorida,
Se vai abrindo a chaga da saudade!...
É esta aqui, meu Brito, a minha vida!
Nem exagera a pena meu tormento,
Em poéticas tintas embebida!
Tenho n’alma um cruel pressentimento
(Talvez não mui remota profecia
Que não posso apagar do pensamento!)
Espero cedo o meu extremo dia;
E a morte, da pátria tão distante,
É quadro que me abate de agonia!
A saudade tornou-me tolerante!
Que importa ser da pátria desprezado?
Serei sempre da pátria filho amante.
Se outrora, contra ela conspirado,
Os males que me fez lancei-lhe em rosto,
Hoje tudo lhe tenho perdoado.
Dos lances em que a sorte me tem posto
Esquecido, o desgosto de não vê-la
É dos desgostos meus maior desgosto!
Ah! que não fosse a hora de perdê-la,
A hora em que parti!... O sul formoso
É belo, benfazejo, é lar ditoso:
Mas eu tenho no Norte a minha estrela!