EPÍSTOLA 2ª
Eu sou aquele que outrora
Me apresentei condidato,
E me apresento inda agora
Fiado em teu patronato.
Se alguém me chama enfadonho,
Se alguém me acusa de teima,
Esse embargo a que me oponho
Lá por isso não me queima.
Ao lugar de Deputado
A gente que é candidata
Tenha o rosto encouraçado,
Tenha sangue de barata.
Alferes José Roberto,
Meu refúgio e desempenho,
Hoje de novo me aperto,
E ao beneplácito venho.
Neste sistema de votos,
Que em progresso se abastarda,
Eu sou um dos teus devotos,
Tu és minha salvaguarda.
De prestígio não és pobre,
A independência não falta;
Quem a dera a muito nobre
Que está em posição mais alta!
Além de tua franqueza,
Que em nenhum caso desmentes,
Tens por essa redondeza
Muitas dúzias de parentes.
E estando todos de acordo,
Como entre vós é costume,
O teu auxílio tão gordo
Se estende, não se resume.
Se o Venâncio, teu sobrinho,
Grande influência da Pomba,
Quiser lá ser meu padrinho,
Tenho um padrinho de arromba.
Porque da outra vez, Alferes,
De votos me deste um zero,
Que eu recue não esperes,
Que prossigas não espero.
Há um rifão que decerto
Não se toma por chalaça,
O qual é, meu bom Roberto,
— Quem porfia mata caça —.
Eu bem sei que estou exposto
A revezes e derrotas,
Mas, se tiver tal desgosto,
Não te hei de meter as botas.
Cumpro o dever de avisar-te,
Que aceito qualquer aliança;
Até no campo Marte
Com ela tudo se alcança.
Quem neste foro litiga
Lá em seus cálculos ponha
Que a transação pacto ou liga
Não compromete a vergonha.
Que importa que sejas urso,
Ou mesmo que sejas boto,
Se teu valioso concurso
Pode render algum voto?!
São hipóteses que assento,
Não te equiparo a tais bichos;
Combater é meu intento
Rançosos princípios fixos.
Fixa só tenho esta ideia,
Embora alguns não concordem,
Que entrando eu para a assembleia,
Tudo está na melhor ordem.
’Stou na regra, pois trabalha
Cada um para que entre,
E, se a crença se baralha,
Ao menos salva-se o ventre.
Por saber que és erudito,
Do sábio Menênio Agripa
A fábula não repito
Sobre o mérito da tripa.
Dos nobres a governança,
Nessa fábula tão lisa,
É comparada coa pança,
Que decerto a simboliza.
Decaiu desde essa data
Do bom caráter o orgulho,
E o patriota anda à cata
Daquilo que enche o bandulho.
Se teus escrúpulos o exigem,
Eu explico, e não te iludo,
Que é daí que teve origem
O nome de barrigudo.
E quem outro rumo toma
A virtude não concebe
Dos barrigudos que em Roma
Afugentaram a plebe.
Da lábia fazendo emprego
Conciliador foi Menênio,
E, chegando o povo ao rego,
Teve lugar o convênio.
Mas não gastemos palavras
Com fatos de Roma prisca,
Noutras minas, noutras lavras
Minha bateia faísca.
O tempo não corre, voa;
Aproveitemos as horas,
Pois, segundo se apregoa,
Venter non patitur moras.
A eleição nos bate à porta,
E nem tudo está conforme,
Ficará de cara torta
Quem alto dia inda dorme.
Põe-te a caminho, ó patrono,
De polainas e de alforjes,
Em Baependi não tem sono
Teu rival Andrade Borges.
Mãos à obra, meu valente,
Descobre teu peito à bala;
Não te mostres indolente,
Minado pela cabala.
Eu te afirmo, com verdade,
Que em nada te comprometo;
Ao contrário, teu nome há de
Figurar num poemeto.
A eleição me favoreça,
E esquecido dos favores
Não serei eu quem pareça
A ti e aos mais eleitores.
As tuas prezadas cartas
Não deixarei sem respostas,
Que às barrigas menos fartas
Eu não sei virar as costas.
Não terás de que te queixes,
E já que nisto se toca,
Dou razão, razão aos feixes
Ao povo da Juruoca.
Na ginástica o político
Adestre perna e cintura,
Aliás toma-se raquítico,
E incapaz de uma mesura.
Quem nas mesuras não prima,
E não faz mil cortesias,
Perde o equilíbrio lá em cima,
E cá embaixo as simpatias.
Eu prometo não ser parco,
Nas carícias e no afago;
De outro modo afunda o barco,
E, triste de mim, naufrago.
Já conservo de memória
Um discurso de improviso,
E hei de contar muita história,
Entre apoiados e riso.
Por ser contador de histórias,
Tu não me chames histórico;
Práticas são ilusórias,
Eu sou liberal teórico.
Liberal e saquarema
A um ovo se compara,
Eu por mim prefiro a gema,
Deixo que gostes da clara.
Cada qual pense a seu modo,
O pensar alheio acato;
Com isso não me incomodo,
Palavra de candidato.
Na outra epístola fiz-te
Um milhão e mil promessas,
Esse papel não foi triste,
Pois por aí vejo dessas.
Como é estilo, armei a rede,
Para apanhar os peixotes,
E quis imitar adrede
Os autores de calotes.
Desta vez prometo pouco,
Mas prometo alguma cousa;
Bem pode passar por louco
Quem muito prometer ousa.
Silêncio, silêncio, amigo,
Escuta, que o caso é sério!
No que em seguida te digo
Avalia meu critério!
Sobre a questão importante
De emancipar nossos manos,
Hei de fazer num instante
Serviço de muitos anos!
Tem-se dado liberdade
Só ao escravo que é macho,
Ficando a cara metade
No cativeiro mais baixo!
Porque segue ao ventre a prole,
A escravidão não se extingue,
Enquanto aí não se bole,
Enquanto um só filho vingue!
Pois bem! Eu tenho um projeto
Acerca do belo sexo,
E por meio mui direto
Decepo o odioso nexo.
É que se um termo assinasse
De ser infecunda a escrava,
A raça de negra face
Em breve se emancipava!
Se a minha bisca se embarca,
Um aviso do ministro
Mande ter cada comarca
Um livro para registro.
E meu nome desta sorte
Voará de terra em terra,
Pela América do Norte,
E filantropa Inglaterra.