EPÍSTOLA 2ª

By José Joaquim Correia de Almeida

Eu sou aquele que outrora

Me apresentei condidato,

E me apresento inda agora

Fiado em teu patronato.

Se alguém me chama enfadonho,

Se alguém me acusa de teima,

Esse embargo a que me oponho

Lá por isso não me queima.

Ao lugar de Deputado

A gente que é candidata

Tenha o rosto encouraçado,

Tenha sangue de barata.

Alferes José Roberto,

Meu refúgio e desempenho,

Hoje de novo me aperto,

E ao beneplácito venho.

Neste sistema de votos,

Que em progresso se abastarda,

Eu sou um dos teus devotos,

Tu és minha salvaguarda.

De prestígio não és pobre,

A independência não falta;

Quem a dera a muito nobre

Que está em posição mais alta!

Além de tua franqueza,

Que em nenhum caso desmentes,

Tens por essa redondeza

Muitas dúzias de parentes.

E estando todos de acordo,

Como entre vós é costume,

O teu auxílio tão gordo

Se estende, não se resume.

Se o Venâncio, teu sobrinho,

Grande influência da Pomba,

Quiser lá ser meu padrinho,

Tenho um padrinho de arromba.

Porque da outra vez, Alferes,

De votos me deste um zero,

Que eu recue não esperes,

Que prossigas não espero.

Há um rifão que decerto

Não se toma por chalaça,

O qual é, meu bom Roberto,

— Quem porfia mata caça —.

Eu bem sei que estou exposto

A revezes e derrotas,

Mas, se tiver tal desgosto,

Não te hei de meter as botas.

Cumpro o dever de avisar-te,

Que aceito qualquer aliança;

Até no campo Marte

Com ela tudo se alcança.

Quem neste foro litiga

Lá em seus cálculos ponha

Que a transação pacto ou liga

Não compromete a vergonha.

Que importa que sejas urso,

Ou mesmo que sejas boto,

Se teu valioso concurso

Pode render algum voto?!

São hipóteses que assento,

Não te equiparo a tais bichos;

Combater é meu intento

Rançosos princípios fixos.

Fixa só tenho esta ideia,

Embora alguns não concordem,

Que entrando eu para a assembleia,

Tudo está na melhor ordem.

’Stou na regra, pois trabalha

Cada um para que entre,

E, se a crença se baralha,

Ao menos salva-se o ventre.

Por saber que és erudito,

Do sábio Menênio Agripa

A fábula não repito

Sobre o mérito da tripa.

Dos nobres a governança,

Nessa fábula tão lisa,

É comparada coa pança,

Que decerto a simboliza.

Decaiu desde essa data

Do bom caráter o orgulho,

E o patriota anda à cata

Daquilo que enche o bandulho.

Se teus escrúpulos o exigem,

Eu explico, e não te iludo,

Que é daí que teve origem

O nome de barrigudo.

E quem outro rumo toma

A virtude não concebe

Dos barrigudos que em Roma

Afugentaram a plebe.

Da lábia fazendo emprego

Conciliador foi Menênio,

E, chegando o povo ao rego,

Teve lugar o convênio.

Mas não gastemos palavras

Com fatos de Roma prisca,

Noutras minas, noutras lavras

Minha bateia faísca.

O tempo não corre, voa;

Aproveitemos as horas,

Pois, segundo se apregoa,

Venter non patitur moras.

A eleição nos bate à porta,

E nem tudo está conforme,

Ficará de cara torta

Quem alto dia inda dorme.

Põe-te a caminho, ó patrono,

De polainas e de alforjes,

Em Baependi não tem sono

Teu rival Andrade Borges.

Mãos à obra, meu valente,

Descobre teu peito à bala;

Não te mostres indolente,

Minado pela cabala.

Eu te afirmo, com verdade,

Que em nada te comprometo;

Ao contrário, teu nome há de

Figurar num poemeto.

A eleição me favoreça,

E esquecido dos favores

Não serei eu quem pareça

A ti e aos mais eleitores.

As tuas prezadas cartas

Não deixarei sem respostas,

Que às barrigas menos fartas

Eu não sei virar as costas.

Não terás de que te queixes,

E já que nisto se toca,

Dou razão, razão aos feixes

Ao povo da Juruoca.

Na ginástica o político

Adestre perna e cintura,

Aliás toma-se raquítico,

E incapaz de uma mesura.

Quem nas mesuras não prima,

E não faz mil cortesias,

Perde o equilíbrio lá em cima,

E cá embaixo as simpatias.

Eu prometo não ser parco,

Nas carícias e no afago;

De outro modo afunda o barco,

E, triste de mim, naufrago.

Já conservo de memória

Um discurso de improviso,

E hei de contar muita história,

Entre apoiados e riso.

Por ser contador de histórias,

Tu não me chames histórico;

Práticas são ilusórias,

Eu sou liberal teórico.

Liberal e saquarema

A um ovo se compara,

Eu por mim prefiro a gema,

Deixo que gostes da clara.

Cada qual pense a seu modo,

O pensar alheio acato;

Com isso não me incomodo,

Palavra de candidato.

Na outra epístola fiz-te

Um milhão e mil promessas,

Esse papel não foi triste,

Pois por aí vejo dessas.

Como é estilo, armei a rede,

Para apanhar os peixotes,

E quis imitar adrede

Os autores de calotes.

Desta vez prometo pouco,

Mas prometo alguma cousa;

Bem pode passar por louco

Quem muito prometer ousa.

Silêncio, silêncio, amigo,

Escuta, que o caso é sério!

No que em seguida te digo

Avalia meu critério!

Sobre a questão importante

De emancipar nossos manos,

Hei de fazer num instante

Serviço de muitos anos!

Tem-se dado liberdade

Só ao escravo que é macho,

Ficando a cara metade

No cativeiro mais baixo!

Porque segue ao ventre a prole,

A escravidão não se extingue,

Enquanto aí não se bole,

Enquanto um só filho vingue!

Pois bem! Eu tenho um projeto

Acerca do belo sexo,

E por meio mui direto

Decepo o odioso nexo.

É que se um termo assinasse

De ser infecunda a escrava,

A raça de negra face

Em breve se emancipava!

Se a minha bisca se embarca,

Um aviso do ministro

Mande ter cada comarca

Um livro para registro.

E meu nome desta sorte

Voará de terra em terra,

Pela América do Norte,

E filantropa Inglaterra.