EPISTOLA I
A vós, Pastor distante,
Bem que presente sempre na lembrança,
Saúde envia Alcino, que a vingança
Da fortuna inconstante,
Do bárbaro destino,
Chora na própria terra peregrino.
Se a flauta mal cadente
Entoa agora o verso harmonioso,
Sabei, me comunica este saudoso
Influxo a dor veemente,
Não o gênio suave,
Que ouviste já no acento agudo, e grave.
Entorpeceu-se o canto,
E a Musa tristemente enrouquecida
Se viu, depois que a sorte desabrida
Trocou o doce encanto,
Das Ninfas do Mondego,
Pelo deste retiro inculto emprego.
Como presente vejo,
Fileno, para estrago da memória,
Aquele doce bem, que a maior glória
Formava a meu desejo!
Como na estampa grata
Da lembrança o perdido se retrata!
Pela margem frondosa
Desse, que corre, vagaroso rio,
Quantas vezes, Pastor, a calma, o frio
Vencemos na gostosa,
Alegre sociedade,
Que alentava do canto a suavidade!
Quantas vezes rompendo
Das claras águas a corrente fria,
Das Ninfas do Mondego a companhia
A ouvir se estava erguendo,
Por entre a espuma bela,
Que uma hora se desfaz, e outra congela!
Quantas vezes parava
A doce Filomena o triste acento,
E do álamo frondoso (enquanto o vento
As folhas meneava)
Os números ouvia,
Que a nossa acorde flauta repetia!
Que mudança importuna
Hoje diverso faz o gênio antigo!
Negando à Musa o generoso abrigo
Da plácida fortuna,
Porque habite uma estância,
Em que só vive a pena, a mágoa, a ânsia!
O gênio antes festivo,
Pronto no baile, jogo, e na floresta,
Quanto se oprime, quanto se molesta
Ao golpe executivo
Do fado, que tem posto
Tanto empenho em tecer o meu desgosto!
O seu giro, ó Fileno,
Não seja em vosso dano assim violento:
Discorra só no bem, no obséquio atento,
Porque no mais ameno
Campo, e entre os Pastores,
Vos consagre Amarílis seus amores.
Não erre o vosso gado,
Qual vaga o meu, sem dono: antes contente
Paste do campo a relva florescente.
O pomo sazonado
Colhei; e na floresta
Tende fortuna mais ditosa que esta.
E se no prado ou monte
Pastor vive, que guarde inda a memória
Da minha triste, lastimosa história,
Dizei-lhe vós que conte
O seu verso canoro
Meu caso triste no silvestre coro.
A minha tosca avena
Sempre há de respirar na atividade
Da, que me arde no peito, ímpia saudade:
E creio, à minha pena,
Se há de ver algum dia
Respirar estes bosques alegria.