EPISTOLA I

By Cláudio Manuel da Costa

A vós, Pastor distante,

Bem que presente sempre na lembrança,

Saúde envia Alcino, que a vingança

Da fortuna inconstante,

Do bárbaro destino,

Chora na própria terra peregrino.

Se a flauta mal cadente

Entoa agora o verso harmonioso,

Sabei, me comunica este saudoso

Influxo a dor veemente,

Não o gênio suave,

Que ouviste já no acento agudo, e grave.

Entorpeceu-se o canto,

E a Musa tristemente enrouquecida

Se viu, depois que a sorte desabrida

Trocou o doce encanto,

Das Ninfas do Mondego,

Pelo deste retiro inculto emprego.

Como presente vejo,

Fileno, para estrago da memória,

Aquele doce bem, que a maior glória

Formava a meu desejo!

Como na estampa grata

Da lembrança o perdido se retrata!

Pela margem frondosa

Desse, que corre, vagaroso rio,

Quantas vezes, Pastor, a calma, o frio

Vencemos na gostosa,

Alegre sociedade,

Que alentava do canto a suavidade!

Quantas vezes rompendo

Das claras águas a corrente fria,

Das Ninfas do Mondego a companhia

A ouvir se estava erguendo,

Por entre a espuma bela,

Que uma hora se desfaz, e outra congela!

Quantas vezes parava

A doce Filomena o triste acento,

E do álamo frondoso (enquanto o vento

As folhas meneava)

Os números ouvia,

Que a nossa acorde flauta repetia!

Que mudança importuna

Hoje diverso faz o gênio antigo!

Negando à Musa o generoso abrigo

Da plácida fortuna,

Porque habite uma estância,

Em que só vive a pena, a mágoa, a ânsia!

O gênio antes festivo,

Pronto no baile, jogo, e na floresta,

Quanto se oprime, quanto se molesta

Ao golpe executivo

Do fado, que tem posto

Tanto empenho em tecer o meu desgosto!

O seu giro, ó Fileno,

Não seja em vosso dano assim violento:

Discorra só no bem, no obséquio atento,

Porque no mais ameno

Campo, e entre os Pastores,

Vos consagre Amarílis seus amores.

Não erre o vosso gado,

Qual vaga o meu, sem dono: antes contente

Paste do campo a relva florescente.

O pomo sazonado

Colhei; e na floresta

Tende fortuna mais ditosa que esta.

E se no prado ou monte

Pastor vive, que guarde inda a memória

Da minha triste, lastimosa história,

Dizei-lhe vós que conte

O seu verso canoro

Meu caso triste no silvestre coro.

A minha tosca avena

Sempre há de respirar na atividade

Da, que me arde no peito, ímpia saudade:

E creio, à minha pena,

Se há de ver algum dia

Respirar estes bosques alegria.