EPÍSTOLA II

By Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage

Conheço de teus males a veemência,

Prezada Olinda! Eu própria os hei sofrido,

Quando da mesma idade que hoje contas

Próvida a Natureza começava

A preencher em mim seus fins sagrados.

Marcha ela por graus em suas obras;

Precede ao fruto a flor já matizada,

Que fora antes de flor botão mimoso.

Assim a sabia mão da Natureza

A passos insensíveis caminhando

Maravilhas em nós produz, que assombram.

Somos na infância apenas um bosquejo

Do que nos cumpre ser anos mais tarde.

N’aquela idade a Natureza atenta

Em conservar-nos só, não desenvolve

Sentimentos, que então supérfluos foram:

Inativas nos tem, e nos conserva,

Bem como as plantas no gelado inverno.

Porém depois que o sol da primavera

Fecundos raios sobre nós dardeja,

Então de novas formas animado

Pula nas veias afogueado sangue,

E sem perder da infância os atrativos

Da puberdade o lustre desfrutamos.

Então sentimos comoções insólitas,

Que origem são dos males, que te oprimem;

Do amor, que te domina, melancólico;

Da forte agitação, que em ti presentes.

Mas tem tudo remédio; eu hei de dar-t’o,

Feliz serás, se o trilho me seguires.