EPÍSTOLA II
Conheço de teus males a veemência,
Prezada Olinda! Eu própria os hei sofrido,
Quando da mesma idade que hoje contas
Próvida a Natureza começava
A preencher em mim seus fins sagrados.
Marcha ela por graus em suas obras;
Precede ao fruto a flor já matizada,
Que fora antes de flor botão mimoso.
Assim a sabia mão da Natureza
A passos insensíveis caminhando
Maravilhas em nós produz, que assombram.
Somos na infância apenas um bosquejo
Do que nos cumpre ser anos mais tarde.
N’aquela idade a Natureza atenta
Em conservar-nos só, não desenvolve
Sentimentos, que então supérfluos foram:
Inativas nos tem, e nos conserva,
Bem como as plantas no gelado inverno.
Porém depois que o sol da primavera
Fecundos raios sobre nós dardeja,
Então de novas formas animado
Pula nas veias afogueado sangue,
E sem perder da infância os atrativos
Da puberdade o lustre desfrutamos.
Então sentimos comoções insólitas,
Que origem são dos males, que te oprimem;
Do amor, que te domina, melancólico;
Da forte agitação, que em ti presentes.
Mas tem tudo remédio; eu hei de dar-t’o,
Feliz serás, se o trilho me seguires.