EPÍSTOLA III

By Cláudio Manuel da Costa

A vós, Pastor amado,

Que lá do pátrio rio

Nas frescas praias, úmidas ribeiras

(Qual debaixo de um álamo sombrio

Títiro, que abrasado

De Amarílis suspira), as lisonjeiras

Horas lograis, no métrico exercício,

Propício seja o fado, ou impropício;

Saúde vos deseja

E plácido descanso

Daliso, o Pastor triste, cujo emprego

É mal tocada lira e gado manso,

Que nem maligna inveja,

Nem êmula porfia em seu sossego

Altera, atravessando o bosque inculto,

Desde o monte frondoso ao vale oculto.

Aquela harmoniosa,

Nunca no bosque ouvida,

Cítara, que regia o vosso canto,

Com que ativo desejo me convida

À pena mais saudosa!

Se souberas, Salício amado, quanto

Me chega a arrebatar aquele acento,

Duvidareis vós mesmo do tormento.

Então vi sem mentira,

Ou fabuloso engano,

Possível o que Alfemo nos contava

Do amante, que do Averno desumano,

Ao som da acorde lira,

A já perdida esposa resgatava.

O vosso canto, Amigo, se quisera,

O mesmo inferno adormecer pudera.

Não duvidei que houvesse

Acento tão divino,

Que enternecendo o bárbaro pirata

Fiasse todo o bem do seu destino

A um Delfim, que pudesse,

Rompendo as ondas que esse mar desata,

Conduzir de Arion a amada vida,

Sobre os ombros, à praia apetecida.

Tudo possível cria;

Que aquele acorde acento,

Que arrebatando a idéia contemplava,

De vossa voz no doce movimento,

Dar ao mundo podia

Exemplos de prodígio: oh! qual rasgava

Nunca imitado canto o vento leve!

Como o Zéfiro a ouvi-lo se deteve!

Crede-me: eu, suspirando

Mil vezes a ventura

De ver-vos, a um Pastor dessa montanha

Perguntava por vós; e a doce cura

Do desejo buscando

Da notícia, que tinha em nada estranha,

Da que notei, feliz realidade,

Maior motivo achava à saudade

Quando verei, dizia,

Um Pastor tão amado,

Que no baile, na dança, na carreira,

Ou perseguindo a fera, sempre ao lado

Por companheiro via?

Oh! Queira o brando fado, a sorte queira

Que esta tão larga, tão cruel distância,

Não venha a perverter sua constância.

Hidrópico, meu peito

Sempre ver-vos suspira;

E por lisonja desta ausência dura,

Ao doce e acorde som da vossa lira,

Invoca o terno efeito.

Fazei que eu logre o bem desta ventura,

Enquanto fica com atento aviso,

Para servir-vos, o pastor Daliso.