EPÍSTOLA III
A vós, Pastor amado,
Que lá do pátrio rio
Nas frescas praias, úmidas ribeiras
(Qual debaixo de um álamo sombrio
Títiro, que abrasado
De Amarílis suspira), as lisonjeiras
Horas lograis, no métrico exercício,
Propício seja o fado, ou impropício;
Saúde vos deseja
E plácido descanso
Daliso, o Pastor triste, cujo emprego
É mal tocada lira e gado manso,
Que nem maligna inveja,
Nem êmula porfia em seu sossego
Altera, atravessando o bosque inculto,
Desde o monte frondoso ao vale oculto.
Aquela harmoniosa,
Nunca no bosque ouvida,
Cítara, que regia o vosso canto,
Com que ativo desejo me convida
À pena mais saudosa!
Se souberas, Salício amado, quanto
Me chega a arrebatar aquele acento,
Duvidareis vós mesmo do tormento.
Então vi sem mentira,
Ou fabuloso engano,
Possível o que Alfemo nos contava
Do amante, que do Averno desumano,
Ao som da acorde lira,
A já perdida esposa resgatava.
O vosso canto, Amigo, se quisera,
O mesmo inferno adormecer pudera.
Não duvidei que houvesse
Acento tão divino,
Que enternecendo o bárbaro pirata
Fiasse todo o bem do seu destino
A um Delfim, que pudesse,
Rompendo as ondas que esse mar desata,
Conduzir de Arion a amada vida,
Sobre os ombros, à praia apetecida.
Tudo possível cria;
Que aquele acorde acento,
Que arrebatando a idéia contemplava,
De vossa voz no doce movimento,
Dar ao mundo podia
Exemplos de prodígio: oh! qual rasgava
Nunca imitado canto o vento leve!
Como o Zéfiro a ouvi-lo se deteve!
Crede-me: eu, suspirando
Mil vezes a ventura
De ver-vos, a um Pastor dessa montanha
Perguntava por vós; e a doce cura
Do desejo buscando
Da notícia, que tinha em nada estranha,
Da que notei, feliz realidade,
Maior motivo achava à saudade
Quando verei, dizia,
Um Pastor tão amado,
Que no baile, na dança, na carreira,
Ou perseguindo a fera, sempre ao lado
Por companheiro via?
Oh! Queira o brando fado, a sorte queira
Que esta tão larga, tão cruel distância,
Não venha a perverter sua constância.
Hidrópico, meu peito
Sempre ver-vos suspira;
E por lisonja desta ausência dura,
Ao doce e acorde som da vossa lira,
Invoca o terno efeito.
Fazei que eu logre o bem desta ventura,
Enquanto fica com atento aviso,
Para servir-vos, o pastor Daliso.