EPÍSTOLA III

By Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage

Quanto gratas me são as tuas letras

Querida Alzira! Ao coração me falas!

As tuas expressões meigas ocultam

Em si virtude tal, que apenas lidas

D’elas a alma se apossa sequiosa:

Tu és, presada amiga, único arquivo

Aonde os meus segredos mais ocultos

Eu vou depositar: em ti encontro

O refrigério a males, que tolero,

Sem poder conhecer a sua origem.

Se bem me lembro, outrora de ti mesma

Ouvi iguais queixumes, não sabendo

Nem eu, nem tu, donde eles procediam.

Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa

Sempre te ouvi chamar desde esse tempo.

Cessaram os teus males, eu os sinto...

A idade é (dizes tu) a causa d’eles;

Ah! Que estranha linguagem! Não concebo

Porque falas assim; pois traz a idade

Males, nos tenros anos não provados?

Três lustros conto apenas: tu três lustros

Antes de te esposar também contavas;

Pôs o consorcio a teus lamentos termo,

Limitará os meus? Ah! dize, dize

Tu, que desassossego igual sofreste,

O seu motivo, e como o apaziguaste:

Revela à tua amiga este mistério

D’onde sinto pender o meu repouso.

Eu não exp’rimentava o que exp’rimento:

Os meus sentidos todos alterados

Uma viva emoção põe em desordem.

Cala-me ativo fogo nas entranhas:

O coração no peito turbulento

Pula, bate com ânsia estranhamente:

O sangue, pelas veias abrasado

Parece que me queima as carnes todas:

A tais agitações languidez terna

Sucede, que a meus olhos pranto arranca,

E o coração desassombrar parece

Do peso da voraz melancolia.

Té mesmo a natureza tem mudado

A configuração, que eu d’antes tinha:

Vão-se aumentando os peitos, e tomando

Uma redonda forma, como aqueles

Que servem de nutrir-nos lá na infância.

D’outros sinais o corpo se matiza

Antes desconhecidos: alvos membros,

Lisos té’qui, macula um brando pelo,

Como o buço ao mancebo, à ave a penugem.

Sobressalta-me d’homens a presença,

Eles, a quem té agora indiferente

Tenho com afouteza sempre olhado!

Ao vê-los o rubor me sobe ao rosto,

A voz me treme, e articular não posso

Sons, que emperrada a língua não exprime.

Sinto desejos; que expressar me custa;

Amor... E como a ideia tal me arrojo?

Será talvez amor isto que eu sinto?

Já tenho lido efeitos de seus danos;

Mas esses, que o seu jugo suportaram,

Tinham com quem seu peso repartissem,

Tinham a quem chamavam doce objeto,

Quem a seu mal remédio sugerisse.

Isto era amor; mas eu amor não sinto;

A doce inclinação, que dous amantes

Um ao outro consagram, desconheço.

Sim; dos homens a vista lisonjeira

É para mim; nenhum porém me prende;

Não sei que chama interna me afogueia...

Amor isto será? Alzira, fala,

Fala com candidez à tua amiga;

Ensina-me a curar a funda chaga,

Que internamente lavra por mim toda:

D’estas agitações, que me flagelam,

Mostra-me a causa, mostra-me o remédio:

Tu tiveste-as também, já não te avexam,

Mostra-me por que modo as terminaste.

Talvez do que te digo farás mofa...

Ah! vê que por meus lábios a inocência

Contigo é quem se exprime; tem dó d’ela,

E se os meus sentimentos são culpáveis,

Dize-m’o, que abafados em meu peito

Serei vítima d’eles; se extingui-los

Os meus esforços todos não poderem,

Comigo hão de morrer, findar comigo.