EPÍSTOLA IV

By Cláudio Manuel da Costa

Ao duro tronco atado,

O Grego enganador da Ninfa bela,

Ouvindo o som daquela

Consonância do coro levantado,

Foge à ruína, teme o precipício.

Mas se o canto, Salício,

Que alternastes no verso harmonioso,

No golfo perigoso

Das úmidas Deidades se entoara,

Do acorde acento à suavidade rara,

Que alegre cederia

Ulisses aos encantos da harmonia!

Hidrópico, bebendo

A líquida corrente, nunca tanto

Se vê, com o quebranto

Do sol ardente, o gado que descendo

Vem de uma e outra parte da floresta.

Quanto se manifesta

Ansioso o meu desejo, achando agora

A lisonja sonora

Desse canto, Salício, que respira

Tão doce, que por mais que a alma ferira

O impulso harmonioso,

Sempre o meu peito suspirara ansioso.

Oh! ditoso salgueiro

Aquele, Pastor belo, em que pendente

A cítara cadente,

No silêncio me viu por derradeiro,

Enquanto choro a vossa ausência dura!

Quanto maior ventura

É ver da solitária sombra fria

A perdida alegria,

O gosto desmaiado expor brilhante,

Mais risonho esta vez o seu semblante,

Bem como a tenebrosa

Noite, que a luz do Sol faz mais formosa!

Do músico instrumento

O espírito té agora sufocado,

Bebeu mais esforçado

O que respira, harmonioso alento:

Deva-se tanto obséquio à saudade.

De Pã a Divindade,

Que uniu primeiro a cera à débil cana,

Nunca tão soberana

A voz ergueu; nem lá no Idálio monte,

Ao murmurar feliz do Xanto, a fonte

Respirou tão suave,

De Enone bela no tormento grave.

Só vós, Pastor querido,

As sombras desterrando da tristeza,

Podeis lograr a empresa

De sufocar os ecos do gemido,

Com tão acorde, sonoroso excesso!

A tanto bem confesso

Que do campo os prodígios celebrados

Serão mal comparados,

Inda quando a memória os eternize

Pelos troncos das faias, bem que avise

Um e outro letreiro

Qual o segundo foi, qual o primeiro.

Se pois é de Salício

Tão poderosa a voz; se a mão tão destra,

No jogo, na palestra,

Tem a glória maior; se no exercício

Do canto o verde louro ele consegue,

Salício não me negue,

Que desigual a competência fica,

Quando a seguir se aplica

Do mísero Meliso a mal pulsada

Cítara, que é somente acompanhada

De Faunos da espessura,

Não de branca Napéia, ou Ninfa pura.

Turva, e feia, a corrente

Deste ribeiro nosso não habita

Dríada, que repita

Em branda voz o número cadente:

Que tudo nele triste fez o fado.

Ditoso aquele estado

Em que, pobre pastor, me contentava

A terra, que lavrava,

O gado, que a pastar guiava errante

Desta montanha àquela: ah! que inconstante

Fortuna em mim figura

De Melibeu a triste desventura!

Mas eu cuido que vejo

Aquela carregada sombra feia,

De gosto, que recreia,

(Se não mo finge a imagem do desejo),

Ir a face vestindo já mais clara.

Oh! que mudança rara

Estou nesta ribeira contemplando!

Pouco e pouco dourando

Se vai o escuro vale, e o alto monte:

Nova chama ilumina este Horizonte.

Tanto gosto se deve

Do sonoro Salício ao canto leve.

Vivei, ó Pastor grato,

E o vosso campo eternamente seja

Dos Elísios inveja,

Ditosa cópia, plácido retrato

Daquele que o Pastor pisou de Anfriso:

E vivei para glória de Meliso.