EPÍSTOLA IV
Ao duro tronco atado,
O Grego enganador da Ninfa bela,
Ouvindo o som daquela
Consonância do coro levantado,
Foge à ruína, teme o precipício.
Mas se o canto, Salício,
Que alternastes no verso harmonioso,
No golfo perigoso
Das úmidas Deidades se entoara,
Do acorde acento à suavidade rara,
Que alegre cederia
Ulisses aos encantos da harmonia!
Hidrópico, bebendo
A líquida corrente, nunca tanto
Se vê, com o quebranto
Do sol ardente, o gado que descendo
Vem de uma e outra parte da floresta.
Quanto se manifesta
Ansioso o meu desejo, achando agora
A lisonja sonora
Desse canto, Salício, que respira
Tão doce, que por mais que a alma ferira
O impulso harmonioso,
Sempre o meu peito suspirara ansioso.
Oh! ditoso salgueiro
Aquele, Pastor belo, em que pendente
A cítara cadente,
No silêncio me viu por derradeiro,
Enquanto choro a vossa ausência dura!
Quanto maior ventura
É ver da solitária sombra fria
A perdida alegria,
O gosto desmaiado expor brilhante,
Mais risonho esta vez o seu semblante,
Bem como a tenebrosa
Noite, que a luz do Sol faz mais formosa!
Do músico instrumento
O espírito té agora sufocado,
Bebeu mais esforçado
O que respira, harmonioso alento:
Deva-se tanto obséquio à saudade.
De Pã a Divindade,
Que uniu primeiro a cera à débil cana,
Nunca tão soberana
A voz ergueu; nem lá no Idálio monte,
Ao murmurar feliz do Xanto, a fonte
Respirou tão suave,
De Enone bela no tormento grave.
Só vós, Pastor querido,
As sombras desterrando da tristeza,
Podeis lograr a empresa
De sufocar os ecos do gemido,
Com tão acorde, sonoroso excesso!
A tanto bem confesso
Que do campo os prodígios celebrados
Serão mal comparados,
Inda quando a memória os eternize
Pelos troncos das faias, bem que avise
Um e outro letreiro
Qual o segundo foi, qual o primeiro.
Se pois é de Salício
Tão poderosa a voz; se a mão tão destra,
No jogo, na palestra,
Tem a glória maior; se no exercício
Do canto o verde louro ele consegue,
Salício não me negue,
Que desigual a competência fica,
Quando a seguir se aplica
Do mísero Meliso a mal pulsada
Cítara, que é somente acompanhada
De Faunos da espessura,
Não de branca Napéia, ou Ninfa pura.
Turva, e feia, a corrente
Deste ribeiro nosso não habita
Dríada, que repita
Em branda voz o número cadente:
Que tudo nele triste fez o fado.
Ditoso aquele estado
Em que, pobre pastor, me contentava
A terra, que lavrava,
O gado, que a pastar guiava errante
Desta montanha àquela: ah! que inconstante
Fortuna em mim figura
De Melibeu a triste desventura!
Mas eu cuido que vejo
Aquela carregada sombra feia,
De gosto, que recreia,
(Se não mo finge a imagem do desejo),
Ir a face vestindo já mais clara.
Oh! que mudança rara
Estou nesta ribeira contemplando!
Pouco e pouco dourando
Se vai o escuro vale, e o alto monte:
Nova chama ilumina este Horizonte.
Tanto gosto se deve
Do sonoro Salício ao canto leve.
Vivei, ó Pastor grato,
E o vosso campo eternamente seja
Dos Elísios inveja,
Ditosa cópia, plácido retrato
Daquele que o Pastor pisou de Anfriso:
E vivei para glória de Meliso.