EPÍSTOLA IV
Com que satisfação, com que alegria
Vejo da minha Olinda as ternas letras!
Retrato da inocência, me afiguras
O que por mim passou, estranho efeito
De um coração sensível, não manchado
Ainda pela mão da iniquidade.
Fala, não temas exprimir-te, Olinda,
Que se culpável fores de outrem aos olhos,
Aos meus és inocente, e assim te julgo.
Da inviolável lei da Natureza
A que sujeita estás, bem como tudo,
Nascem, querida amiga, os teus transportes:
Só provém d’ela, é ela que t’os causa;
Ela os mitigará em tempo breve,
Dando-te próvida um remédio ativo.
A triste educação, que ambas tivemos,
Mais desenvolve os ternos sentimentos
Dos que amar só procuram, e não podem
Na solidão senão atormentar-se.
Do recato das filhas temerosos
Pensam os rudes pais, que em sopeá-las
Alcançam extinguir o voraz fogo
Que sopra a Natureza, e que ela ateia.
Néscios, de amor lhe formam atentados,
Que o coração desmente, e que não pode
Saber justificar a razão mesma.
Benignas emoções chamam flagícios,
Que infernais penas castigar costumam;
Sem que atinem o modo por que devam
Torná-las puras, e do crime alheias,
Porque do crime o amor não dif’renciam,
Amor, e crime o mesmo lhes figuram.
Ah! que de um pai o emprego não tolera
Máximas impostoras, vis ideias
Que religião não sofre, e que forcejam
Para co’a religião autorizá-las.
Saiba-se pois té onde o culto, a honra
De um Deus se estende, e quais limites devem
Marcar-se ás impressões da natureza:
Em vez de aferrolhar as tristes filhas,
Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,
Do vicio a estrada com desvelo atento.
Pois que impureza, e amor um rumo seguem
Consiste o mal ou o bem na escolha d’este.
Sim, chara Olinda: como tu, eu própria
Falta da sociedade, porque n’ela
Viam meus pais o escolho da inocência,
As mesmas emoções senti outrora;
Nos tenros anos teus então zombavas
Do que nem mesmo decifrar podias.
Quantas vezes meu coração ás claras
Te descobri, querida; e quantas vezes
O meu desassossego não provando,
Rias dos sentimentos, que em minh’alma
Entranhados estavam, sem que a causa
D’eles jamais me fosse conhecida?
Agora os exp’rimentas, crês agora
O que falso julgaras, verdadeiro!...
A Natureza em ti o gérmen lança,
Que a ajudá-la te incita: Amor te inflama,
Porque sensível és; e bem que hesites
Sobre o objeto, que deve contentar-te,
Ela t’o mostrará em tempo breve.
Não te assustem do seu domínio as forças,
Porque de jugo seu o peso é leve.
Não mais sofres fervidos desejos,
Que o coração te anseiam, e bem podem
A languidez eterna vitimar-te,
Se de amor o remédio os não sacia.
Atenta sobre mil louçãos mancebos,
Cheios de encantos: olha-os indulgente,
E d’entre eles escolhe um, cujo peito
Tão dócil como o teu seja formado.
Olinda, ama; conhece que delicias
Amor encerra, amor, alma de tudo;
Amor, que tudo alenta, e que só causa
Os gostos de uma vida abreviada.
Se contra amor ditames escutaste,
Que seus efeitos pintam horrorosos,
Não dês credito a máximas fingidas,
Que a língua exprime, e o coração reprova:
Que mal provém aos homens, de que unidos
Dois amantes se jurem fé, constância?
Que um ao outro se entreguem, e obedeçam
Da Natureza ás impressões sagradas?
Rouba a virtude acaso a paixão doce
Que beijos mil só farta, e que só pode
Nos braços de um amante saciar-se?...
Não; amor a virtude fortifica:
Mais a piedade sobre as desventuras
Que os outros sofrem, mais a humanidade
Em nós se aumenta, quando mais amamos.
Se desde o berço em nós força indizível
Sentimentos de amor vai radicando;
Se, mal balbuciamos, quanto vemos
A falarmos de amor nos estimula;
Se a idade vai crescendo, e a natureza
Nossas feições altera; assinalando
Com marcas bem sensíveis, que chegámos
Ao prazo, em que é lei sua amar por força,
Ou desnegar então nossa existência:
Se tudo a amar convida, e nos impele,
Quem ousa amor chamar crime execrando?...
Ah! deixa, Olinda, deixa que alardeiem
Virtude austera hipócritas infames:
Sabe que, em quanto amor horrível pintam,
Em quanto aos olhos teus assim o afeiam,
De uma amante venal nos torpes braços
Vão esconder transportes, que os devoram,
E, por castigo seu, somente gozam
Emprestadas caricias, vis afagos.
Mas quando assim os homens dissimulam,
Para dissimulares te dão direito:
Finge, como eles; ama, e lh’o disfarça;
Que é mais um gosto amar ás escondidas.
Afeta, embora, afeta sisudeza
Já que a afetar te obrigam, e em segredo
De instantes enfadonhos te indeniza:
Zomba dos seus ardis, e estratagemas;
Dize, entre os braços de um amante caro,
Que mais crédulos são, do que te julgam,
Se creem nos laços seus aprisionar-te.
Se os deleites de amor são só delitos
Quando sabidos são, com véu mui denso
A perspicazes olhos os encobre:
Vinga-te d’esses, que abafar procuram
As doces emoções, que n’alma sentes.
São estes os conselhos de uma amiga
Que os bens te anela, que ela saboreia.
Sabe, por fim, que quanto mais retardas
Tão ditosos momentos, sem gozá-los;
Quanto mais tempo perdes ociosa
Sem às vozes de amor ser resignada,
Tanto mais tempo tens de lastimar-te,
Por não tê-lo em amar aproveitado.