EPÍSTOLA IV

By Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage

Com que satisfação, com que alegria

Vejo da minha Olinda as ternas letras!

Retrato da inocência, me afiguras

O que por mim passou, estranho efeito

De um coração sensível, não manchado

Ainda pela mão da iniquidade.

Fala, não temas exprimir-te, Olinda,

Que se culpável fores de outrem aos olhos,

Aos meus és inocente, e assim te julgo.

Da inviolável lei da Natureza

A que sujeita estás, bem como tudo,

Nascem, querida amiga, os teus transportes:

Só provém d’ela, é ela que t’os causa;

Ela os mitigará em tempo breve,

Dando-te próvida um remédio ativo.

A triste educação, que ambas tivemos,

Mais desenvolve os ternos sentimentos

Dos que amar só procuram, e não podem

Na solidão senão atormentar-se.

Do recato das filhas temerosos

Pensam os rudes pais, que em sopeá-las

Alcançam extinguir o voraz fogo

Que sopra a Natureza, e que ela ateia.

Néscios, de amor lhe formam atentados,

Que o coração desmente, e que não pode

Saber justificar a razão mesma.

Benignas emoções chamam flagícios,

Que infernais penas castigar costumam;

Sem que atinem o modo por que devam

Torná-las puras, e do crime alheias,

Porque do crime o amor não dif’renciam,

Amor, e crime o mesmo lhes figuram.

Ah! que de um pai o emprego não tolera

Máximas impostoras, vis ideias

Que religião não sofre, e que forcejam

Para co’a religião autorizá-las.

Saiba-se pois té onde o culto, a honra

De um Deus se estende, e quais limites devem

Marcar-se ás impressões da natureza:

Em vez de aferrolhar as tristes filhas,

Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,

Do vicio a estrada com desvelo atento.

Pois que impureza, e amor um rumo seguem

Consiste o mal ou o bem na escolha d’este.

Sim, chara Olinda: como tu, eu própria

Falta da sociedade, porque n’ela

Viam meus pais o escolho da inocência,

As mesmas emoções senti outrora;

Nos tenros anos teus então zombavas

Do que nem mesmo decifrar podias.

Quantas vezes meu coração ás claras

Te descobri, querida; e quantas vezes

O meu desassossego não provando,

Rias dos sentimentos, que em minh’alma

Entranhados estavam, sem que a causa

D’eles jamais me fosse conhecida?

Agora os exp’rimentas, crês agora

O que falso julgaras, verdadeiro!...

A Natureza em ti o gérmen lança,

Que a ajudá-la te incita: Amor te inflama,

Porque sensível és; e bem que hesites

Sobre o objeto, que deve contentar-te,

Ela t’o mostrará em tempo breve.

Não te assustem do seu domínio as forças,

Porque de jugo seu o peso é leve.

Não mais sofres fervidos desejos,

Que o coração te anseiam, e bem podem

A languidez eterna vitimar-te,

Se de amor o remédio os não sacia.

Atenta sobre mil louçãos mancebos,

Cheios de encantos: olha-os indulgente,

E d’entre eles escolhe um, cujo peito

Tão dócil como o teu seja formado.

Olinda, ama; conhece que delicias

Amor encerra, amor, alma de tudo;

Amor, que tudo alenta, e que só causa

Os gostos de uma vida abreviada.

Se contra amor ditames escutaste,

Que seus efeitos pintam horrorosos,

Não dês credito a máximas fingidas,

Que a língua exprime, e o coração reprova:

Que mal provém aos homens, de que unidos

Dois amantes se jurem fé, constância?

Que um ao outro se entreguem, e obedeçam

Da Natureza ás impressões sagradas?

Rouba a virtude acaso a paixão doce

Que beijos mil só farta, e que só pode

Nos braços de um amante saciar-se?...

Não; amor a virtude fortifica:

Mais a piedade sobre as desventuras

Que os outros sofrem, mais a humanidade

Em nós se aumenta, quando mais amamos.

Se desde o berço em nós força indizível

Sentimentos de amor vai radicando;

Se, mal balbuciamos, quanto vemos

A falarmos de amor nos estimula;

Se a idade vai crescendo, e a natureza

Nossas feições altera; assinalando

Com marcas bem sensíveis, que chegámos

Ao prazo, em que é lei sua amar por força,

Ou desnegar então nossa existência:

Se tudo a amar convida, e nos impele,

Quem ousa amor chamar crime execrando?...

Ah! deixa, Olinda, deixa que alardeiem

Virtude austera hipócritas infames:

Sabe que, em quanto amor horrível pintam,

Em quanto aos olhos teus assim o afeiam,

De uma amante venal nos torpes braços

Vão esconder transportes, que os devoram,

E, por castigo seu, somente gozam

Emprestadas caricias, vis afagos.

Mas quando assim os homens dissimulam,

Para dissimulares te dão direito:

Finge, como eles; ama, e lh’o disfarça;

Que é mais um gosto amar ás escondidas.

Afeta, embora, afeta sisudeza

Já que a afetar te obrigam, e em segredo

De instantes enfadonhos te indeniza:

Zomba dos seus ardis, e estratagemas;

Dize, entre os braços de um amante caro,

Que mais crédulos são, do que te julgam,

Se creem nos laços seus aprisionar-te.

Se os deleites de amor são só delitos

Quando sabidos são, com véu mui denso

A perspicazes olhos os encobre:

Vinga-te d’esses, que abafar procuram

As doces emoções, que n’alma sentes.

São estes os conselhos de uma amiga

Que os bens te anela, que ela saboreia.

Sabe, por fim, que quanto mais retardas

Tão ditosos momentos, sem gozá-los;

Quanto mais tempo perdes ociosa

Sem às vozes de amor ser resignada,

Tanto mais tempo tens de lastimar-te,

Por não tê-lo em amar aproveitado.