EPÍSTOLA V
Recebo, Alcido amado,
O transunto feliz, o delicado,
Numeroso desenho
Do vosso belo, peregrino engenho.
Nele respira aquela suavidade
Com que outro tempo a délfica Deidade,
Pelas ribeiras do saudoso Anfriso,
Tornava todo o monte de improviso,
De Tebaida alegre, Chipre amena,
Centro da mágoa, habitação da pena.
A imagem da saudade retratada
Qual se descobre aos ecos animada
Da vossa acorde lira!
Ali geme, ali chora, ali suspira
O rosto macilento,
Reclinando com brando movimento
Já sobre a mão, já enxugando o pranto,
Que os olhos vertem com mortal quebranto.
Menos suave, menos elegante
Pintou o Português a frágua amante
Em que Vênus dispunha aos Lusitanos
A dourada lisonja dos enganos,
Quando aos olhos descobre a feliz Ilha,
Do mar d’Atlante oculta maravilha.
Mas que muito respire tão ativo
O fogo da saudade executivo,
Se da razão no intrínseco conceito
Bebe a força eficaz do agudo efeito!
É sempre menos dura
A pena, que na rústica cultura
Ao Pastor acompanha,
Na choça, no redil, que aquela estranha
Paixão que segue o cortesão polido,
Na civil sociedade introduzido.
Assim o vosso engenho agudo, e raro
Concebe em grande excesso o estrago avaro
Do saudoso tormento;
Dando-lhe tanto mais crescido alento
Que ao vigor do discurso, ponderada,
É em vós a saudade mais pesada.
Oh! se a guerra implacável que se acende
Por dentro de minha alma, e que se estende
Pelo campo espaçoso da lembrança
Pudera retratar-vos, que mudança
Tão contrária, tão fúnebre, tão dura
Em mim veríeis da fortuna escura!
Aquele aspecto afável da alegria,
Que o coração brotava, quando via
Presente em vós o bem que adora tanto,
Apenas pelas cláusulas do pranto,
Pelas sílabas mudas do gemido,
Hoje publica o fúnebre ruído,
Que ergue a dor nas imagens da memória,
Tentando em sombras a passada glória.
O confuso girar de meu cuidado
Encontro vivamente retratado
Em um baixel vagando, que sem norte
Guia com vária sorte
A onda impetuosa
No golfo Egeu, soprando a tormentosa
Fúria dos ventos, que na estranha guerra
O crespo Eolo no penhasco encerra.
Mas cesse de meu mal aquela ativa,
Tirana agitação, que se deriva
Do tormento fatal da vossa ausência;
Já parece desmaio esta violência,
Quando do vosso espírito suave
A bela produção canora e grave
Enche os ares de acorde melodia,
Que arrebata de todo a fantasia.
Dos nossos fiéis amigos, que a lembrança
Vossa com tão gostoso excesso alcança,
Testemunho a plausível recompensa,
Enviando-vos dum a cópia imensa
Desses de Apolo gratos desperdícios,
Doutro, intérpretes sendo os sacrifícios,
Que repete nas chamas da saudade
A vossa em tudo cândida amizade.
Mas desta, que deixaste tão saudosa
Ribeira em outro tempo venturosa,
Quando animada do sonoro acento
Do vosso acorde, harmônico instrumento,
Como é possível que eu traslade as vozes
Que entre os ais e suspiros mais velozes,
Me estão recomendando a cada instante
As lembranças do seu obséquio amante?
Ela me pede (que discreto rogo!)
Que aquele generoso, ardente fogo,
Em que por vós se abrasa, vos refira;
E que outra vez do vosso plectro e lira
(Por que a pena sufoque, extinga a ânsia)
O toque busque, empenhe a consonância.
Eu o suplico assim, meu caro Alcido,
E a vossos pés rendido
Ofereço a vontade, com que posso
Dizer que sou fiel amigo vosso.