EPÍSTOLA V

By Cláudio Manuel da Costa

Recebo, Alcido amado,

O transunto feliz, o delicado,

Numeroso desenho

Do vosso belo, peregrino engenho.

Nele respira aquela suavidade

Com que outro tempo a délfica Deidade,

Pelas ribeiras do saudoso Anfriso,

Tornava todo o monte de improviso,

De Tebaida alegre, Chipre amena,

Centro da mágoa, habitação da pena.

A imagem da saudade retratada

Qual se descobre aos ecos animada

Da vossa acorde lira!

Ali geme, ali chora, ali suspira

O rosto macilento,

Reclinando com brando movimento

Já sobre a mão, já enxugando o pranto,

Que os olhos vertem com mortal quebranto.

Menos suave, menos elegante

Pintou o Português a frágua amante

Em que Vênus dispunha aos Lusitanos

A dourada lisonja dos enganos,

Quando aos olhos descobre a feliz Ilha,

Do mar d’Atlante oculta maravilha.

Mas que muito respire tão ativo

O fogo da saudade executivo,

Se da razão no intrínseco conceito

Bebe a força eficaz do agudo efeito!

É sempre menos dura

A pena, que na rústica cultura

Ao Pastor acompanha,

Na choça, no redil, que aquela estranha

Paixão que segue o cortesão polido,

Na civil sociedade introduzido.

Assim o vosso engenho agudo, e raro

Concebe em grande excesso o estrago avaro

Do saudoso tormento;

Dando-lhe tanto mais crescido alento

Que ao vigor do discurso, ponderada,

É em vós a saudade mais pesada.

Oh! se a guerra implacável que se acende

Por dentro de minha alma, e que se estende

Pelo campo espaçoso da lembrança

Pudera retratar-vos, que mudança

Tão contrária, tão fúnebre, tão dura

Em mim veríeis da fortuna escura!

Aquele aspecto afável da alegria,

Que o coração brotava, quando via

Presente em vós o bem que adora tanto,

Apenas pelas cláusulas do pranto,

Pelas sílabas mudas do gemido,

Hoje publica o fúnebre ruído,

Que ergue a dor nas imagens da memória,

Tentando em sombras a passada glória.

O confuso girar de meu cuidado

Encontro vivamente retratado

Em um baixel vagando, que sem norte

Guia com vária sorte

A onda impetuosa

No golfo Egeu, soprando a tormentosa

Fúria dos ventos, que na estranha guerra

O crespo Eolo no penhasco encerra.

Mas cesse de meu mal aquela ativa,

Tirana agitação, que se deriva

Do tormento fatal da vossa ausência;

Já parece desmaio esta violência,

Quando do vosso espírito suave

A bela produção canora e grave

Enche os ares de acorde melodia,

Que arrebata de todo a fantasia.

Dos nossos fiéis amigos, que a lembrança

Vossa com tão gostoso excesso alcança,

Testemunho a plausível recompensa,

Enviando-vos dum a cópia imensa

Desses de Apolo gratos desperdícios,

Doutro, intérpretes sendo os sacrifícios,

Que repete nas chamas da saudade

A vossa em tudo cândida amizade.

Mas desta, que deixaste tão saudosa

Ribeira em outro tempo venturosa,

Quando animada do sonoro acento

Do vosso acorde, harmônico instrumento,

Como é possível que eu traslade as vozes

Que entre os ais e suspiros mais velozes,

Me estão recomendando a cada instante

As lembranças do seu obséquio amante?

Ela me pede (que discreto rogo!)

Que aquele generoso, ardente fogo,

Em que por vós se abrasa, vos refira;

E que outra vez do vosso plectro e lira

(Por que a pena sufoque, extinga a ânsia)

O toque busque, empenhe a consonância.

Eu o suplico assim, meu caro Alcido,

E a vossos pés rendido

Ofereço a vontade, com que posso

Dizer que sou fiel amigo vosso.