EPÍSTOLA V

By Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage

Alzira, sou feliz!... Quanto te devo!...

Das tuas instruções é tal o fruto.

Quanto encarava em torno era a meus olhos

De lúgubres ideias feio quadro:

Tudo o que vejo agora alegres, vivas,

Imagens prazenteiras, me suscita.

Os ternos sentimentos, que provava,

Mil vezes combinando com ditames

Que desde a infância sempre m’inspiraram;

Mil vezes refletia que dos homens,

Ou de um tirano Deus era ludibrio:

Conceber não podia que existisse

Para experimentar contínua luta

Entre impressões da própria natureza,

E princípios chamados da virtude.

No pélago de embates tão terríveis

Flutuando implorei o teu auxilio;

Meu coração te abri: tu leste n’ele

O que eu nem mesma deslindar sabia.

Tu me ensinaste a ver quanto fingidos

Os homens são, nas vozes, e nos gestos:

Rasgaste aos olhos meus mascara infame

Com que tem de uso todos encobrir-se;

Das bordas me salvaste de um abismo,

Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se,

Perdoa, Deus imenso! Eu blasfemava

Contra a tua justiça; eu te supunha

Autor do mal, que os homens maquinavam;

Cria-te inconsequente, e despiedado,

Pois sentimentos me imprimiras n’alma

Que ás tuas leis contrários me pintavam!...

Tu foste, Alzira, foste a que lançaste

Um brilhante clarão ante os meus passos...

Finalmente aprendi que a singeleza

Do mundo era banida, e o seu império

Os homens tinham dado à hipocrisia.

Ruins!... Amor por crime afiguravam,

E nem um só de amor vivia isento!...

Para eles não é crime um crime oculto,

Porque a simulação reina em sua alma,

Porque o remorso abafam em seu peito.

Amor um crime!... Os gostos mais completos,

E os mais puros deleites o acompanham:

Se a ventura maior se une ao delito,

Quem há que se não diga delinquente?

D’entre as delicias, que gozei, querida,

Com as tuas lições fugiu o crime.

Eu não senti no coração bradar-me

A voz d’esse pesar, sequaz da culpa:

No meio dos prazeres, que gostava,

Graças rendi a um Deus, que m’os concede:

Se ele troveja sobre os criminosos,

Nunca os seus raios menos me assustaram!...

Um amante acabou o que encetaste;

Ele, cujo olhar meigo me assegura

As doces qualidades, que o adornam,

Afastou-me do espirito receios,

Que de mau grado combatia ainda.

Reinava em seus discursos a franqueza,

E o fogo, que brilhava nos seus olhos,

Que o rosto lhe incendia, em seus transportes

Que eram nascidos d’alma, me dizia:

O labéu da impostura o não denigre;

Não é como o dos outros seu caráter;

Ingênuo, afável, ah! prezada Alzira!

Se tão amável é o teu Alcino,

Ninguém como eu e tu é tão ditoso!...

Pouco preciso foi para vencer-me:

Não teve que impugnar loucos caprichos,

Com que ufanas amantes dificultam

O mutuo galardão, que amor exige:

Se amor ambos int’ressa, e ambos colhemos

Seus mimosos favores, porque causa

Havia de indif’rença dar indícios,

Quando o meu peito, ansioso, palpitava?

Se eu o levava da ventura ao cume,

Não me dava ele a mão para segui-lo?

Sim; nos seus braços, me arrojei sem custo;

E se o pudor as faces me tingia,

Inda as chamas d’amor mais me abrasavam.

Eu nadava em desejos indizíveis;

E quantos beijos recebia, tantos

Cheios de igual fervor lhe compensava:

Seus lábios inflamados ateavam

As doces labaredas, em que ardia,

E meus lábios, aos lábios seus unidos,

Sensações recebiam deleitosas,

Que me filtravam pelo corpo todo...

Tão grandes emoções exp’rimentava,

Que a tanto gosto eu mesma sucumbia!

Presa a voz na garganta, não sabendo

Nem já podendo articular palavra,

Respirando ansiada, e com veemência,

Os meus sentidos todos confundidos,

Sem nada ouvir, nem ver, apenas dando

Sinais de vida, de prazer morria.

Exceto o meu amante, em tais momentos

Longe da ideia tinha o mundo inteiro:

O mundo inteiro então forças não tinha

Para do meu amante desprender-me.

Debalde ante meus passos furibundo

Monstro espantoso vira: em vão lançara

Do aberto seio a terra ondas de fogo;

Em vão coriscos mil o céu vibrara;

Dos braços do amante em tais momentos.

Nada, nada podia arrebatar-me.

Oh quem podera, Alzira, descrever-te

Que êxtase divinal veio pôr termo

A tais instantes de suaves gostos!...

Isto pode sentir-se, e não dizer-se...

Agora, e só agora me parece

Que começo a existir: reproduziu-se

Uma total mudança na minha alma.

O mundo para mim já tem encantos;

Sob outras cores vejo mil objetos,

Que a fantasia me pintou tristonhos:

Propicio Amor abriu-me os seus tesouros,

A Natureza seus tesouros me abre:

Tudo te devo, amiga; em todo o tempo

A teus doces conselhos serei grata:

Oxalá ditas tantas saboreies

Quantas por ti, querida, eu própria gozo!

Oxalá sintas com Alcino os gostos,

Que eu exp’rimento, de um amante ao lado!

Nem ventura maior posso augurar-te,

Porque maior ventura haver não pode.