EPÍTOLA 1ª

By José Joaquim Correia de Almeida

Amigo e valente Alferes,

Eu te desejo saúde,

Como é lícito que esperes

Por tua exemplar virtude.

Não falo em virtude à toa,

O vício, que tanto estraga,

Pode fazer que nos doa

N’alma e corpo muita chaga.

Vamos, porém, ao que importa!

Do sapato rompo a sola,

Vou bater à tua porta,

Para pedir-te uma esmola.

Não digas tu que eu gracejo,

De graças não sou amigo;

Quem pede, vencendo o pejo,

De porta em porta, é mendigo.

Por ironia não tomes

Se te alcunho — o Manda-chuvas —

Do distrito de João Gomes,

Paróquia do Chapéu d’Uvas.

Resolvia presentar-me

Nesta eleição candidato,

E, embora a cabala se arme,

Conto com teu patronato.

Em circunstância tão séria,

Meu Alferes, me protege!

Quem necessita (oh! miséria!)

Dizem ter cara de herege.

Quebre a sátira seu dente,

Longe daqui o epigrama;

Que aspirante ou pretendente

Desenvolvo meu programa.

Por ser homem de princípios

(Neste tempo cousa rara!)

A favor dos municípios

O meu empenho não para.

Um cargueiro de projetos

Eu levo para a assembleia,

De seus diversos objetos

Mal podes fazer ideia.

Hão de cruzar-se as estradas

Por esta província toda,

Serão macadamizadas,

Conforme hoje em dia é moda.

Conseguiremos o efeito,

Sem excesso de trabalho,

Para cobrir todo o leito

Virá da Europa o cascalho.

Por consequência o transporte

Será rápido e barato,

Quer seja do sul ao norte,

Quer do campo para o mato.

Quanto a dinheiro, este sobra,

Orcei-o a bico de pena;

É pequenina a mão d’obra

Da Saudade a Barbacena.

Daqui se dirige a estrada

Aos de Minas vários pontos,

A despesa é quase nada,

Não chega a milhões de contos.

O reverso da medalha

É de vistas estupendas,

Afianço que não falha

Uma só de tantas rendas.

Para ser inda mais curta

Uma distância tamanha,

Muita barca estará surta

Nas águas do Mar de Espanha.

Fácil é o que se deseja,

E não espero debalde

Que o sertão em breve seja

Do grande empório arrabalde.

O lixo, que tanto abunda

Nesse Rio de Janeiro,

Sendo importado fecunda

O estéril solo Mineiro.

Essa riqueza da rua,

Que não nos trará desdouro,

A província retribua

Com seus diamantes e ouro.

E adotada uma tabela

No Rio Preto e mais portos,

Renderão gorda parcela

Direitos que não são tortos.

Lindas joias diamantinas

Do Tijuco e da Bagagem

Se exportarão cá de Minas

Por estradas de rodagem.

Inda há muito lucro certo,

Não duvides, meu Alferes,

Tornando-se o longe perto,

Como é lícito que esperes.

Coa rapidez do caminho,

À qual deixarás de opor-te,

Comerão queijo fresquinho

Os habitantes da corte.

Enquanto ligeiro e astuto

O demônio esfrega um olho,

Arrecada-se o tributo

Da exportação do repolho.

Cumprirei tão certamente

O que te prometo e auguro,

Que passo para o presente

A linguagem do futuro.

Pitangui, cidade morta,

Enchendo fangas e fangas,

Revive, porque transporta

Pitangas e mais pitangas.

Sabará já não se abate,

Que decaia não suponhas;

Rende-lhe mais que o do mate

O comércio de Congonhas.

Na exposição e na feira,

Onde há barracas de lona,

Já se vende da Oliveira

Óleo excelente e azeitona.

Não devo perder o ensejo,

Que para nós se encaminha,

A favor do lugarejo,

Tua pátria e pátria minha.

Há de cessar essa pena,

Há de cessar essa mágoa

Que a gente de Barbacena

Padece por falta de água.

Em barril sobre a cabeça

Água fresca suba o monte,

E destarte se abasteça

A cidade nessa fonte.

Para não me fazer guerra

O bom povo Ouro-pretano,

A benefício da terra

Já tenho engenhado um plano.

Se não pode em Vila Rica

Girar uma só carruagem,

Remediado isso fica

Nessa imensa ladeiragem.

Será posto em cada rua,

Por dar trânsito, um sarilho;

Deste modo não se sua,

E poupa-se muito milho.

Hei de propor mil escolas

Primárias e secundárias,

Em que nossos rapazolas

Estudem matérias várias.

Por querer tudo moderno,

Proscrevo o latino idioma;

O latim não seja eterno,

Exceto na eterna Roma.

Eu, neste ponto, acho boa

A reforma huminosa;

Porém voltemos a proa,

Que isto é verso, não é prosa.

Receio que o bom Rodrigo,

O meu velho amigo Bretas,

Ao ler-me diga consigo:

Ora bolas, ora petas.

Em São João del-Rei pretendo

Um curso de agricultura,

Donde o povo irá colhendo

Ventura sobre ventura.

Eu te o digo sem disfarce,

Será principal doutrina

O modo de cultivar-se

A laranja e a tangerina.

E como alguns São-Joaneiros

Nos foguetes acham gozo,

Aprenderão em canteiros

A cultivar fedegoso.

Proporei, que se improvise

De Minas Gerais o mapa;

Quando isto se realize

Um só lugar não me escapa.

A seguinte descoberta,

De evidência intuitiva,

Aprovação terá certa,

E há de ganhar muito — viva.

A máquina fotográfica

Sobre a lua se sustenha,

E, com certeza geográfica,

A província se desenha.

Porém... caluda! segredo!

Se a descoberta descobrem,

Desde já vou tendo medo

Que os impropérios me sobrem.

Há invejosos nesta terra

Que, empregando ruins dictérios,

Podem mover dura guerra

Aos meus projetos aéreos.