EPÍTOLA 1ª
Amigo e valente Alferes,
Eu te desejo saúde,
Como é lícito que esperes
Por tua exemplar virtude.
Não falo em virtude à toa,
O vício, que tanto estraga,
Pode fazer que nos doa
N’alma e corpo muita chaga.
Vamos, porém, ao que importa!
Do sapato rompo a sola,
Vou bater à tua porta,
Para pedir-te uma esmola.
Não digas tu que eu gracejo,
De graças não sou amigo;
Quem pede, vencendo o pejo,
De porta em porta, é mendigo.
Por ironia não tomes
Se te alcunho — o Manda-chuvas —
Do distrito de João Gomes,
Paróquia do Chapéu d’Uvas.
Resolvia presentar-me
Nesta eleição candidato,
E, embora a cabala se arme,
Conto com teu patronato.
Em circunstância tão séria,
Meu Alferes, me protege!
Quem necessita (oh! miséria!)
Dizem ter cara de herege.
Quebre a sátira seu dente,
Longe daqui o epigrama;
Que aspirante ou pretendente
Desenvolvo meu programa.
Por ser homem de princípios
(Neste tempo cousa rara!)
A favor dos municípios
O meu empenho não para.
Um cargueiro de projetos
Eu levo para a assembleia,
De seus diversos objetos
Mal podes fazer ideia.
Hão de cruzar-se as estradas
Por esta província toda,
Serão macadamizadas,
Conforme hoje em dia é moda.
Conseguiremos o efeito,
Sem excesso de trabalho,
Para cobrir todo o leito
Virá da Europa o cascalho.
Por consequência o transporte
Será rápido e barato,
Quer seja do sul ao norte,
Quer do campo para o mato.
Quanto a dinheiro, este sobra,
Orcei-o a bico de pena;
É pequenina a mão d’obra
Da Saudade a Barbacena.
Daqui se dirige a estrada
Aos de Minas vários pontos,
A despesa é quase nada,
Não chega a milhões de contos.
O reverso da medalha
É de vistas estupendas,
Afianço que não falha
Uma só de tantas rendas.
Para ser inda mais curta
Uma distância tamanha,
Muita barca estará surta
Nas águas do Mar de Espanha.
Fácil é o que se deseja,
E não espero debalde
Que o sertão em breve seja
Do grande empório arrabalde.
O lixo, que tanto abunda
Nesse Rio de Janeiro,
Sendo importado fecunda
O estéril solo Mineiro.
Essa riqueza da rua,
Que não nos trará desdouro,
A província retribua
Com seus diamantes e ouro.
E adotada uma tabela
No Rio Preto e mais portos,
Renderão gorda parcela
Direitos que não são tortos.
Lindas joias diamantinas
Do Tijuco e da Bagagem
Se exportarão cá de Minas
Por estradas de rodagem.
Inda há muito lucro certo,
Não duvides, meu Alferes,
Tornando-se o longe perto,
Como é lícito que esperes.
Coa rapidez do caminho,
À qual deixarás de opor-te,
Comerão queijo fresquinho
Os habitantes da corte.
Enquanto ligeiro e astuto
O demônio esfrega um olho,
Arrecada-se o tributo
Da exportação do repolho.
Cumprirei tão certamente
O que te prometo e auguro,
Que passo para o presente
A linguagem do futuro.
Pitangui, cidade morta,
Enchendo fangas e fangas,
Revive, porque transporta
Pitangas e mais pitangas.
Sabará já não se abate,
Que decaia não suponhas;
Rende-lhe mais que o do mate
O comércio de Congonhas.
Na exposição e na feira,
Onde há barracas de lona,
Já se vende da Oliveira
Óleo excelente e azeitona.
Não devo perder o ensejo,
Que para nós se encaminha,
A favor do lugarejo,
Tua pátria e pátria minha.
Há de cessar essa pena,
Há de cessar essa mágoa
Que a gente de Barbacena
Padece por falta de água.
Em barril sobre a cabeça
Água fresca suba o monte,
E destarte se abasteça
A cidade nessa fonte.
Para não me fazer guerra
O bom povo Ouro-pretano,
A benefício da terra
Já tenho engenhado um plano.
Se não pode em Vila Rica
Girar uma só carruagem,
Remediado isso fica
Nessa imensa ladeiragem.
Será posto em cada rua,
Por dar trânsito, um sarilho;
Deste modo não se sua,
E poupa-se muito milho.
Hei de propor mil escolas
Primárias e secundárias,
Em que nossos rapazolas
Estudem matérias várias.
Por querer tudo moderno,
Proscrevo o latino idioma;
O latim não seja eterno,
Exceto na eterna Roma.
Eu, neste ponto, acho boa
A reforma huminosa;
Porém voltemos a proa,
Que isto é verso, não é prosa.
Receio que o bom Rodrigo,
O meu velho amigo Bretas,
Ao ler-me diga consigo:
Ora bolas, ora petas.
Em São João del-Rei pretendo
Um curso de agricultura,
Donde o povo irá colhendo
Ventura sobre ventura.
Eu te o digo sem disfarce,
Será principal doutrina
O modo de cultivar-se
A laranja e a tangerina.
E como alguns São-Joaneiros
Nos foguetes acham gozo,
Aprenderão em canteiros
A cultivar fedegoso.
Proporei, que se improvise
De Minas Gerais o mapa;
Quando isto se realize
Um só lugar não me escapa.
A seguinte descoberta,
De evidência intuitiva,
Aprovação terá certa,
E há de ganhar muito — viva.
A máquina fotográfica
Sobre a lua se sustenha,
E, com certeza geográfica,
A província se desenha.
Porém... caluda! segredo!
Se a descoberta descobrem,
Desde já vou tendo medo
Que os impropérios me sobrem.
Há invejosos nesta terra
Que, empregando ruins dictérios,
Podem mover dura guerra
Aos meus projetos aéreos.