ERGUIAM-SE TREZ MULHERES A HUM MESMO TEMPO PARA CHEGAR AO CONFFISSIONARIO EM NOY...
Quem viu cousa como aquela,
que aconteceu na Igreja
o dia, que ela festeja
a Deus nascido por ela?
quem inda não sabe dela,
aplique o sentido ao canto
da minha Musa, e enquanto
ela cantando lho diz,
vá perfumando o nariz
por se livrar do quebranto.
Estavam três naus em carga,
e entre si com grã porfia
de qual primeiro entraria
a fazer sua descarga:
então a da popa larga,
vendo que há, quem se lhe atreva,
nada sofre, nom releva,
sendo a principal da tropa
com meio conhão de popa
atirou peça de leva.
Peça de leva atirou
com tal ronco, e tais ruídos,
que atordoou os ouvidos
da gente, que ali se achou:
e posto que disparou
lá por baixo de socapa,
de excomunhão não escapa
por disparar em sagrado,
que é pecado reservado
na bula da ceia ao Papa.
Tal estrago a peça fez
pelos narizes vizinhos,
que mais de trinta focinhos
se torceram esta vez:
sentindo a maldita rês
que tão fedorenta está,
disse uma negra “cá cá;
p’o diabo: e que má casta
de pólvora ali se gasta”
respondeu outra “má má.”
Quando ouviram o sinal
as outras duas naus ambas,
foram chorar suas lambas,
dando fundo cada qual:
certo não fizeram mal
em não querer provocá-la
porque assim lhes escala
o nariz a artilharia
com pólvora, que seria
se lhe atirasse com bala?
Alguns, creio, admiraram
da pólvora a fortaleza,
por rebentar nesta empresa
pela culatra o canhão
mas a minha admiração
está, no que o povo diz
por áí, que essa infeliz,
e traidora artilharia
fazendo aos pés pontaria,
fez o emprego no nariz.
Mas que muito que assim seja,
se este canhão português
faz andar tudo ao revés,
quando sem pejo despeja:
já se sabe ser a igreja
asilo a todo o culpado;
mas quando foi disparado
o canhão aos combatentes,
nem ainda aos inocentes
narizes valeu sagrado.
Mas se perguntasse alguém
com desdém, e desafogo
como a peça tomou fogo,
sendo, que ouvido não tem:
eu respondendo mui bem
dissera que por estar
a peça tão par a par
do crisol generativo
se comunicou ativo
o fogo no abalroar.
Mas não o quero dizer,
porque não mande, que o prove
algum, que isto me reprove,
querendo-o melhor saber:
e assim já boto a correr
seguindo a ruína da nau,
que aberta vai pelo vau,
e vou procurar-lhe estopa
por calefetar-lhe a popa,
antes que saia o mingau.
Logo pois que o seu canhão
deu fogo, o baixel violento,
largando velas ao vento
foi pedir absolvição:
porém eu digo, que não
pecou ela desta vez,
pois com soltar de cortês
o preso, que se valeu
do Sagrado, mereceu
a festa que se lhe fez.
As Fragatas da companha
botando as barbas de molho,
porque esta lhe dera de olho,
lhe fizeram festa estranha:
deram-lhe trela tamanha,
que cuido, porque o não vi,
que a pobre partiu dali
tão corrida, e envergonhada,
que foi de voga arrancada
a dar fundo em Parati.
E se passou mais avante,
já pôde chegar à Europa,
porque foi com vento em popa,
e escoou-se co’a vazante:
mas se algum bom estudante
na arte da disentéria
por desgraça, ou por miséria
reprovou desta poesia
a forma, por cortesia
prove ao menos a matéria.