ERGUIAM-SE TREZ MULHERES A HUM MESMO TEMPO PARA CHEGAR AO CONFFISSIONARIO EM NOY...

By Gregório de Matos Guerra

Quem viu cousa como aquela,

que aconteceu na Igreja

o dia, que ela festeja

a Deus nascido por ela?

quem inda não sabe dela,

aplique o sentido ao canto

da minha Musa, e enquanto

ela cantando lho diz,

vá perfumando o nariz

por se livrar do quebranto.

Estavam três naus em carga,

e entre si com grã porfia

de qual primeiro entraria

a fazer sua descarga:

então a da popa larga,

vendo que há, quem se lhe atreva,

nada sofre, nom releva,

sendo a principal da tropa

com meio conhão de popa

atirou peça de leva.

Peça de leva atirou

com tal ronco, e tais ruídos,

que atordoou os ouvidos

da gente, que ali se achou:

e posto que disparou

lá por baixo de socapa,

de excomunhão não escapa

por disparar em sagrado,

que é pecado reservado

na bula da ceia ao Papa.

Tal estrago a peça fez

pelos narizes vizinhos,

que mais de trinta focinhos

se torceram esta vez:

sentindo a maldita rês

que tão fedorenta está,

disse uma negra “cá cá;

p’o diabo: e que má casta

de pólvora ali se gasta”

respondeu outra “má má.”

Quando ouviram o sinal

as outras duas naus ambas,

foram chorar suas lambas,

dando fundo cada qual:

certo não fizeram mal

em não querer provocá-la

porque assim lhes escala

o nariz a artilharia

com pólvora, que seria

se lhe atirasse com bala?

Alguns, creio, admiraram

da pólvora a fortaleza,

por rebentar nesta empresa

pela culatra o canhão

mas a minha admiração

está, no que o povo diz

por áí, que essa infeliz,

e traidora artilharia

fazendo aos pés pontaria,

fez o emprego no nariz.

Mas que muito que assim seja,

se este canhão português

faz andar tudo ao revés,

quando sem pejo despeja:

já se sabe ser a igreja

asilo a todo o culpado;

mas quando foi disparado

o canhão aos combatentes,

nem ainda aos inocentes

narizes valeu sagrado.

Mas se perguntasse alguém

com desdém, e desafogo

como a peça tomou fogo,

sendo, que ouvido não tem:

eu respondendo mui bem

dissera que por estar

a peça tão par a par

do crisol generativo

se comunicou ativo

o fogo no abalroar.

Mas não o quero dizer,

porque não mande, que o prove

algum, que isto me reprove,

querendo-o melhor saber:

e assim já boto a correr

seguindo a ruína da nau,

que aberta vai pelo vau,

e vou procurar-lhe estopa

por calefetar-lhe a popa,

antes que saia o mingau.

Logo pois que o seu canhão

deu fogo, o baixel violento,

largando velas ao vento

foi pedir absolvição:

porém eu digo, que não

pecou ela desta vez,

pois com soltar de cortês

o preso, que se valeu

do Sagrado, mereceu

a festa que se lhe fez.

As Fragatas da companha

botando as barbas de molho,

porque esta lhe dera de olho,

lhe fizeram festa estranha:

deram-lhe trela tamanha,

que cuido, porque o não vi,

que a pobre partiu dali

tão corrida, e envergonhada,

que foi de voga arrancada

a dar fundo em Parati.

E se passou mais avante,

já pôde chegar à Europa,

porque foi com vento em popa,

e escoou-se co’a vazante:

mas se algum bom estudante

na arte da disentéria

por desgraça, ou por miséria

reprovou desta poesia

a forma, por cortesia

prove ao menos a matéria.