ESCREVE DEPOIS AOS MESMOS MIUDAMENTE O SENTIMENTO NESTA GRACIOSA IMAGEM.
Tenho amargas saüdades
da Senhora Cajaíba,
que é, moças de grandes prendas
por Nerência, e pela Chica.
A propósito do que
sinto não ter, quem me diga,
se brotou com estas águas,
e está no tronco florida.
Se tornou já para casa,
ou se anda ainda fugida,
pois é música tão destra
nas fugas de putaria.
Sinto amargas saüdades,
como ao princípio dizia,
dos amigos um por um,
e dez por dez das amigas.
O largo, e fresco passeio
me lembra da varandinha,
onde se representavam
as comédias do Faísca.
Onde vinha o Azevedo
ter cuidado da faquinha,
que emprestava aos gaioleiros
chorando lágrimas vivas.
Onde vinha em seus tamancos
os domingos, ou domingas
a contar por Evangelho
tão conhecidas mentiras.
Onde Silvestre o virava
tanto de pernas acima
que passado, e amarelo
ou se calava, ou se ia.
Onde assistia Gregório,
e com manha, ou com malícia
todo o murmúrio encontrava,
porque crescesse a porfia.
Onde Marana também
vinha fartar-se de risa,
mas em chegando Silvestre
com Dona Marta a moía.
Eu nunca vi Dona Marta,
nem Deus tal cousa permita,
mas ela é feia mulher
pela boca das vizinhas.
Sabê-lo-á bem Silvestre,
que quando andava à vigia
pelas noites ao quintal,
via aquela alma perdida?
Quantas vezes a viu ele,
quando posta de gatinhas
espremendo, o que cegava,
punha uma cara maldita.
Mas deixemos Dona Marta,
que agora estará com Quita
em grandes razões de estado
sobre Marana, e Antonica.
Não se sabem conservar,
(dirá Quita mui torcida)
nem tomar em mim exemplo,
que sou mestra em putaria.
Já tenho dito a Marana,
que na casa aonde habita,
se dê muito a respeitar
com as negras da cozinha.
Se lhe entra por um ouvido,
sai pelo outro: é menina,
o que faz, é andar folgando
co Cabra Vicente, e Chica.
Com que lhe não tem respeito,
e se ela toma farinha
para mandar a esta casa,
qualquer negrinho lhe grita.
Tenho-lhe dito, Marana,
do peixe da pescaria
o melhor à vossa Mãe,
que assim faz a boa Filha.
Em vindo as mariscadeiras
do mangue carregadinhas,
ninguém meta a mão nos Cestos,
que os melhores são de Quita.
Remetei-os logo ao Sítio,
e fique embora vazia
a casa de vosso amigo,
porque primeiro está a minha.
Se lá tendes nessa casa
dez hóspedes cada dia,
cá tendes vossas Irmãs,
vossa Mãe, vossas Sobrinhas.
Já vedes, que estou tão magra
por passar tantas vigílias,
eu digo, que estou doente,
e sabem, que ando faminta.
Ninguém olha para mim,
e é porque a língua maldita
do Doutor tem publicado
que ando de testa caída.
Entendido está o remoque,
vós não sois mal entendida,
porque enfim saís à casta,
já sois discreta por linha.
Quando estas cousas me lembram,
que me lembram cada dia,
romperei soltas, e peias
por chegar à Cajaíba.
Mas logo o temor me toma,
e fujo, a que me persiga
a inveja do grande amigo
e do inimigo a malícia.
Eu não me quero emendar,
pois faço versos em rimas,
e às unhadas os sujeito,
de quem os corta, e belisca.
Mas por saber de vocês,
a todo o transe se arrisca
a Musa, que está a seus pés
prostrada, exposta, e rendida.