ESCREVE DEPOIS AOS MESMOS MIUDAMENTE O SENTIMENTO NESTA GRACIOSA IMAGEM.

By Gregório de Matos Guerra

Tenho amargas saüdades

da Senhora Cajaíba,

que é, moças de grandes prendas

por Nerência, e pela Chica.

A propósito do que

sinto não ter, quem me diga,

se brotou com estas águas,

e está no tronco florida.

Se tornou já para casa,

ou se anda ainda fugida,

pois é música tão destra

nas fugas de putaria.

Sinto amargas saüdades,

como ao princípio dizia,

dos amigos um por um,

e dez por dez das amigas.

O largo, e fresco passeio

me lembra da varandinha,

onde se representavam

as comédias do Faísca.

Onde vinha o Azevedo

ter cuidado da faquinha,

que emprestava aos gaioleiros

chorando lágrimas vivas.

Onde vinha em seus tamancos

os domingos, ou domingas

a contar por Evangelho

tão conhecidas mentiras.

Onde Silvestre o virava

tanto de pernas acima

que passado, e amarelo

ou se calava, ou se ia.

Onde assistia Gregório,

e com manha, ou com malícia

todo o murmúrio encontrava,

porque crescesse a porfia.

Onde Marana também

vinha fartar-se de risa,

mas em chegando Silvestre

com Dona Marta a moía.

Eu nunca vi Dona Marta,

nem Deus tal cousa permita,

mas ela é feia mulher

pela boca das vizinhas.

Sabê-lo-á bem Silvestre,

que quando andava à vigia

pelas noites ao quintal,

via aquela alma perdida?

Quantas vezes a viu ele,

quando posta de gatinhas

espremendo, o que cegava,

punha uma cara maldita.

Mas deixemos Dona Marta,

que agora estará com Quita

em grandes razões de estado

sobre Marana, e Antonica.

Não se sabem conservar,

(dirá Quita mui torcida)

nem tomar em mim exemplo,

que sou mestra em putaria.

Já tenho dito a Marana,

que na casa aonde habita,

se dê muito a respeitar

com as negras da cozinha.

Se lhe entra por um ouvido,

sai pelo outro: é menina,

o que faz, é andar folgando

co Cabra Vicente, e Chica.

Com que lhe não tem respeito,

e se ela toma farinha

para mandar a esta casa,

qualquer negrinho lhe grita.

Tenho-lhe dito, Marana,

do peixe da pescaria

o melhor à vossa Mãe,

que assim faz a boa Filha.

Em vindo as mariscadeiras

do mangue carregadinhas,

ninguém meta a mão nos Cestos,

que os melhores são de Quita.

Remetei-os logo ao Sítio,

e fique embora vazia

a casa de vosso amigo,

porque primeiro está a minha.

Se lá tendes nessa casa

dez hóspedes cada dia,

cá tendes vossas Irmãs,

vossa Mãe, vossas Sobrinhas.

Já vedes, que estou tão magra

por passar tantas vigílias,

eu digo, que estou doente,

e sabem, que ando faminta.

Ninguém olha para mim,

e é porque a língua maldita

do Doutor tem publicado

que ando de testa caída.

Entendido está o remoque,

vós não sois mal entendida,

porque enfim saís à casta,

já sois discreta por linha.

Quando estas cousas me lembram,

que me lembram cada dia,

romperei soltas, e peias

por chegar à Cajaíba.

Mas logo o temor me toma,

e fujo, a que me persiga

a inveja do grande amigo

e do inimigo a malícia.

Eu não me quero emendar,

pois faço versos em rimas,

e às unhadas os sujeito,

de quem os corta, e belisca.

Mas por saber de vocês,

a todo o transe se arrisca

a Musa, que está a seus pés

prostrada, exposta, e rendida.