ESCUTA
“É tarde! é tarde!” — me volveste ainda,
— Francina ingrata qual geada fria —,
tporque o Céu de tua existência linda
velou-te a nuvem da tormenta, um dia!
Mas passa a nuvem da tormenta escura,
lágrimas muitas derramando, oh, sim!
E a estrela Vésper mais serena e pura
no Céu rebrilha desnudada alfim!
É tarde! é tarde!... mas a tarde é bela!...
Os lírios abrem do crepúsc’lo à luz,
e a alma ele na canção singela
mais doces preces ao sopé da Cruz!
E tu não sentes ao dorido peito
um doce alívio serenar tu’alma?
É o bendito, salutar efeito
do olhar de Deus que nossa dor acalma!
Morrer desejas!... sabes tu que sorte
espera a alma que sem fé viveu?...
Sonhaste acaso si ao depois da morte
terá a triste e doce paz do Céu?...
Luz imortal que vence horrenda treva!...
Si alguém no mundo do teu pranto zomba
eu, não, decerto! — que é sagrada a dor!
E o triste pranto que dos olhos tomba
batismo d’alma que conhece amor!
Daquele Mário que de ti graceja,
oh, sim! — de amor a confissão não queiras!
É borboleta jovial que adeja,
tem lindas asas, mas sutis, ligeiras...
Oh! nunca aceites o amor de Mário!
É falso! é ímpio a insultar-te a dor!
— Há no teu peito um coração sacrário —
talvez dos sonhos d’infeliz amor...
Por isso sofro de te ver chorosa,
e às vezes choro de pesar também...
Francina ingrata mais que agreste rosa
que só espinhos despiedados tem!
A ti — descrida — que te importa o pranto
qu’em per’las corre de minh’alma crente?...
Si o não aceitas — vê que é puro e santo
doce consolo que a minh’alma sente!
Ai! só desejas que eu te esqueça... ingrata!
Pois bem! — jamais perguntarei por ti,
senão à onda que o luar retrata,
senão à rola que gemendo ouvi! —