ESCUTA

By Delminda Silveira de Sousa

“É tarde! é tarde!” — me volveste ainda,

— Francina ingrata qual geada fria —,

tporque o Céu de tua existência linda

velou-te a nuvem da tormenta, um dia!

Mas passa a nuvem da tormenta escura,

lágrimas muitas derramando, oh, sim!

E a estrela Vésper mais serena e pura

no Céu rebrilha desnudada alfim!

É tarde! é tarde!... mas a tarde é bela!...

Os lírios abrem do crepúsc’lo à luz,

e a alma ele na canção singela

mais doces preces ao sopé da Cruz!

E tu não sentes ao dorido peito

um doce alívio serenar tu’alma?

É o bendito, salutar efeito

do olhar de Deus que nossa dor acalma!

Morrer desejas!... sabes tu que sorte

espera a alma que sem fé viveu?...

Sonhaste acaso si ao depois da morte

terá a triste e doce paz do Céu?...

Luz imortal que vence horrenda treva!...

Si alguém no mundo do teu pranto zomba

eu, não, decerto! — que é sagrada a dor!

E o triste pranto que dos olhos tomba

batismo d’alma que conhece amor!

Daquele Mário que de ti graceja,

oh, sim! — de amor a confissão não queiras!

É borboleta jovial que adeja,

tem lindas asas, mas sutis, ligeiras...

Oh! nunca aceites o amor de Mário!

É falso! é ímpio a insultar-te a dor!

— Há no teu peito um coração sacrário —

talvez dos sonhos d’infeliz amor...

Por isso sofro de te ver chorosa,

e às vezes choro de pesar também...

Francina ingrata mais que agreste rosa

que só espinhos despiedados tem!

A ti — descrida — que te importa o pranto

qu’em per’las corre de minh’alma crente?...

Si o não aceitas — vê que é puro e santo

doce consolo que a minh’alma sente!

Ai! só desejas que eu te esqueça... ingrata!

Pois bem! — jamais perguntarei por ti,

senão à onda que o luar retrata,

senão à rola que gemendo ouvi! —