Esperando o inverno

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Por ora, os dias são lindos

Pelo mar e céus infindos.

Surgem cheios de esplendores.

E são cobertos de flores.

São dias embalsamados

De aromas purificados.

Que rumor por sobre os ramos

Onde trinam gaturamos!

Pelos bosques solitários

Que gorjeios de canários!

E brilha a água das fontes

Desses campos, desses montes...

E há dulcíssimos afagos

Na superfície dos lagos.

Cobrem-se os lagos de brilhos

De encantadores vidrilhos:

Às suas águas afluem

Berilos que se diluem...

Veem-se, através das folhagens,

Chamalotes e miragens.

A luz, por sobre os caminhos,

É feita de óleos e vinhos.

E quando ela se derrama,

A terra inteira se inflama.

Tudo canta a bizarria

Dos bandolins da alegria.

Tudo se acorda em divinos

Acordes de violinos.

E há sons de anafis e harpas

Pelo sopé das escarpas.

E a tarde, a tarde é tão doce

Como se de seda fosse.

Como se fosse das sedas

Da ervagem das alamedas,

Dos espinheiros floridos

Juntos aos rios adormidos...

E vêm as noites formosas,

Pespontadas de alvas rosas.

E há uma carícia branda

Em quem pelas noites anda...

Cada espírito parece

De joelhos, numa prece.

Deita-se a gente, no leito,

De coração satisfeito.

Sonha a gente lindas cousas,

Sem pensar nas frias lousas.

É que de maio o céu vasto

É de todos o mais casto.

É todo de luz serena,

E tem pólen de açucena.

E é todo cheio de encantos

Como os altares dos santos.

E é todo um céu de carícias,

E de inefáveis primícias.

Lindo céu que, sobre as almas

Se desfolha como as palmas.

Mas vai ficar no abandono

Esse lindo céu de outono.

Vão-se-lhe extinguir as folhas,

Como do sabão as bolhas...

Virá o frio inverniço

Para lhe apagar o viço.

Hão de vir, em junho, os gelos,

Com seus grandes pesadelos.

Virão os mordentes frios

Da neve, cobrindo os rios...

Virão as noites geladas

Por essas longas estradas.

Virão as asas dos ventos

Trazer trágicos lamentos.

Virão as chuvas miúdas

Arrancar da seara as mudas.

Virão enchentes de sobra,

Em voltívolos de cobra.

E é quando estarei bem triste,

Pela ideia que me assiste:

— Calculo, na minha vila

O frio que a lua destila.

Pois quando há luar a gente

Um frio dobrado sente.

E há, na vila, gente pobre

Que não come e nem se cobre.

Que não possui, no borralho,

Uma lasca de carvalho.

E não come, coitadinha!

Senão pirão de farinha.

E só bebe, ardendo em mágoa,

Um pouco de mel com água.

E tem o quarto em buracos,

E as telhas em muitos cacos.

Gente que retesa os braços

E os pés, cheia de cansaços.

E é dessa gente, Senhora,

Que eu me lembro a toda hora,

Dessa que terá, em junho,

Dos frios o testemunho.

Que terá dias medonhos,

Apavorando-lhe os sonhos.

Então, com benevolência,

Venho pedir a clemência

Dos teus olhos adorados,

Que vivem sempre molhados...

Acolhe-a, ó Virgem Maria,

Toda a noite, e todo o dia,

Com todo esse olhar tão terno,

De forma que, nesse inverno,

Sob o fulgor do teu nome,

Que de estrelas se esculpiu,

Não haja quem sinta fome,

Não haja quem sinta frio.