ESTA CANTIGA ACCOMODA O POETA COM PROPORÇÃO À BARBORA PELO NOME E TRATO, NÃO DEY...

By Gregório de Matos Guerra

Pobre de ti, Barboleta,

imitação do meu mal,

que em chegando ao fogo morres,

porque morres, por chegar.

Passeias em giro a chama,

simples Barboleta, em hora,

que se a chama te enamora,

teu mesmo estrago te chama:

se o seu precipício ama,

quem o seu mal inquieta,

e tu simples, e indiscreta

tens por formosura grata

luz, que traidora te mata,

Pobre de ti, Barboleta.

Ou tu imitas meu ser,

ou eu tua natureza,

pois na luz de uma beleza,

ando ardendo por arder:

se à luz, que vejo acender,

te arrojas tão cega, e tal

que imitas ao natural,

com que arder por ti me vês,

me obrigas a dizer, que és

Imitação do meu mal.

És, Barboleta, comua,

pois a toda luz te botas,

e eu cego, se bem o notas,

sou só, Barboleta, tua:

qualquer segue a estrela sua,

mas tu melhor te socorres,

quando em fogo algum te torres,

porque eu nunca ao fogo chego,

e tu logras tal sossego,

Que em chegando ao fogo morres.

Tu mais feliz, ao que entendo,

inda que percas a vida,

porque a dá por bem perdida,

quem vive de andar morrendo:

eu não morro, e o pertendo,

porque falta a meu pesar

a fortuna de acabar:

tu morres, e tu sossegas,

e vais morta, quando cegas,

Porque morres por chegar.