ESTA SATYRA DIZEM QUE FEZ CERTA PESSOA DE AUCTORIDADE AO POETA, PELO TER SATYRIZ...

By Gregório de Matos Guerra

Hoje a Musa me provoca,

a que bem pelo miúdo

nada cale, e diga tudo,

quanto me vier à boca:

como digo, hoje me toca

meter minha colherada,

que nem sempre ter calada

a boca parece bem:

mas não o saiba ninguém.

Parece, que já começo

a dizer alguma cousa,

e para que o mundo me ouça,

já mil atenções lhe peço:

que não sou sábio, confesso,

para falar elegante;

porém digo, andando avante,

que vejamos o desdém;

mas não o saiba ninguém.

Conheça toda a Bahia,

quem é o sátiro magano,

que lhe há feito tanto dano

desonrando-a cada dia:

pois sem ser de estrebaria,

mais do que um burro esfaimado,

se jacta de grão letrado,

sendo asninho parlafrém:

mas não o saiba ninguém.

Ser a todos preferido

no saber, é, o que pertende:

porém quem se não entende,

mal pode ser entendido:

mas se é sábio, e advertido,

como em vez de achar ventura

foi topar na cornadura,

que demasiada tem:

mas não o saiba ninguém.

Quis por ser em tudo novo,

que é somente o que ele quer,

ter consigo uma mulher,

que é também de todo o povo:

eu só nesta parte o louvo

de discreto, e de entendido,

pois que quis ser seu marido

juntamente com mais cem;

mas não o saiba ninguém.

Como cão, que acha dinheiro,

se contentou da consorte,

que merecendo-lhe a morte,

existe a puta em viveiro:

imaginou ser primeiro,

porém outros antes dele

lhe tinham surrado a pele,

que ele rói d’aquém d’além:

mas não o saiba ninguém.

Por segundo caracol

se deve já conhecer,

porque lhe há posto a mulher

os cornos, que deita ao sol:

por tal o tenho em meu rol

para o meter em dous fornos,

porque lhe aqueçam os cornos,

e se lhe contem também:

mas não o saiba ninguém.

De Vulcano sei, que herdou

o saber mui bem malhar,

não a Bártolo ensinar,

como sei, que se gabou:

se dissera; que o forjou

seu Avô estando malhando,

crédito lhe iria dando,

segundo aqui se contém:

mas não o saiba ninguém.

Nunca soube fazer veso,

senão como tiririca,

porque como ela é, que pica,

e corta todo o universo:

pica a todos por perverso;

mas foi ele bem picado,

conforme nos hão contado,

os que de Lisboa vêm:

mas não o saiba ninguém.

Com levar tantos vaivéns

ficou com cara mui leda

letrado de três a moeda,

ou de três por dous vinténs:

só lhe dão os parabéns

outros asnos como ele,

como se ele fosse alguém:

mas não o saiba ninguém.

Que fora Juiz, se alista

este burro, este asneirão,

e com tal jurisdição

nada teve de Jurista:

e por mais que ser insista

Juiz, como significa,

então maior asno fica,

dos que vão, e dos que vêm:

mas não o saiba ninguém.

Mui contente, e muito ledo

mostra, que não tem mais trato,

do que arranhar como gato

no Parnaso de Quevedo:

traz o mundo em um enredo

com sátiras tão malditas,

que achando-as em livro escritas

se admiram todos, que as vêem:

mas não o saiba ninguém.

Todas as tenho contadas

neste Parnaso das Musas,

que ficaram mui confusas,

vendo, que as tinhas furtadas:

ao português retratadas

no castelhano as acharam,

e como mudas ficaram

posto que não vai, nem vem:

mas não o saiba ninguém.

A todos sátiras fez,

sem ninguém excetuar,

porém não lhe há de faltar,

quem lhe faça desta vez:

se eu estou bem nos meus três,

agora fica talhado,

pois o corte, que lhe hei dado,

parece, que lhe está bem:

mas não o saiba ninguém.

Que fora Juiz de fora,

diz, que passa na rivera,

mas que fora de Juiz era,

afirmarei eu agora:

porque em seu peito não mora,

nem justiça, nem razão,

pois não está em sua mão

jamais poder falar bem:

mas não o saiba ninguém.

Mui caro lhe tem custado

o mais do que tem escrito,

pois o não livrou seu dito,

dos que lhe haviam jurado:

o muito, que tem falado,

(se acaso me não engano)

me fez ouvir, que a Fulano

mataram, e eu direi quem:

mas não o saiba ninguém.

Por debaixo de uma amarra

na Nau, em que se embarcou,

este magano escapou

té sair fora da barra:

e por ver já cousa charra,

o não ter ele vergonha,

é razão, que o descomponha

de quanto à boca me vem:

mas não o saiba ninguém.

Boca, que males há feito,

bem é, que males se faça,

boca, que para mordaça

só parece, que tem jeito:

eu se isto tomar a peito,

juro a Deus onipotente,

não lhe deixar um só dente,

pois que morde, e diz a quem:

mas não o saiba ninguém.

Já que a todos descompõe,

quis agora por meu gosto,

que ele fosse o descomposto,

para ver se se compõe:

mil males sobre si põe,

quem de todos fala mal,

e assim que já cada qual

me pode dizer amém:

mas não o sabia ninguém.

De Cristão não é, senão

de herege, tudo, o que obra,

pois nele a heresia sobra,

e lhe falta o ser cristão:

remetê-lo à Inquisição

já uma vez se intentou,

mas bem veis, quem atalhou,

senhores, tão grande bem:

mas não o saiba ninguém.

Digo-te já de enfadado,

que se fores atrevido,

não só te há de ver perdido,

mas sim de todo acabado:

olha, que o que tens falado,

é mui bastante motivo

para te não deixar vivo,

do teu falar mal te vem:

mas não o saiba ninguém.

Não cuides me hás de escapar

por mais oculto que estejas,

para que magano vejas,

Há, quem te possa ensinar:

emenda esse teu falar,

corta essa língua mordaz,

vê, que este aviso te faz,

quem ela mordido tem:

mas não o saiba ninguém.