ESTANDO O AUTOR DOENTE E MANDANDO PEDIR ALGUM PRATO À MESA AONDE JANTAVA ARRABID...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Um estômago cansado,

De cuja antiga ruína

Tem sido causas iguais

A moléstia e a medicina;

Que tendo em si dos três reinos

As perigosas heranças,

Só não bebeu das boticas

Os São Migueis, e as balanças;

Um estômago sem forças,

E ás leis gerais infiel,

Que não trabalha em diamante,

Como o de frei Manuel;

Que não tem, como este padre,

Tanta fome obediente;

E olha já para a galinha

Como ele olha para a gente;

Para emendar sem-razões,

Que faz arte e natureza,

Vai, fugido das boticas,

Acoutar-se à vossa mesa:

Mil vezes por outra causa

Teve a honra de buscá-la;

Indo então por matar fome,

Vai hoje por despertá-la:

Perdiz, ou branda vitela,

São deste remédio o nome;

Da vossa esplendida mesa

Seja elogio uma fome;

E porque o padre o não saiba,

Será a melhor cautela.

Mandar tirar a iguaria

Quando ele olhar para ela.