ESTANDO O POETA REFUGIADO DE SUA MESMA POBREZA NA ILHA DE MADRE DE DEOS, TEVE NO...

By Gregório de Matos Guerra

Ah Senhor! quanto me pesa

de vos ofender, de sorte

que sendo o crime de morte,

me castigais com pobreza:

se a nossa antiga fraqueza

e primeiro trato dobre

pena mortal, que a soçobre,

destes por lei, que eu suporto,

como me livrais de morto,

e me condenais a pobre?

Dirá vossa indignação,

que me dais pobreza, e vida,

porque viva mais sentida

minha pena, e aflição:

que os mortos não sentem não;

e assim para que eu mais sinta

a dor, que ao morrer requinta,

pois vivendo é mais amarga,

me dais a vida tão larga,

porque a morte é tão sucinta.

Seja, Senhor, o que digo,

ou outra seja a verdade,

faça-se a vossa vontade,

tenha eu vida por castigo:

e quando o tempo inimigo

a carícias me condene,

tanto eu viva, e tanto pene,

tanto padeça, e de sorte,

que se há de aliviar-me a morte,

nunca a morte me despene.

Por castigo mui pesado,

e por pena mui crescida

tenho, meu Deus, esta vida,

mas maior é meu pecado:

vós tendes contrapesado

tanto as culpas, que me dais,

que sendo a morte nos mais

um castigo tão condino,

eu nem da morte sou digno,

e por isso ma negais.

Notável detestação

fazeis, Senhor, do meu cargo,

pois não basta por descargo

a geral satisfação:

morrer foi pena de Adão

da humana prole caudilho,

e assim eu me maravilho,

pois não pude merecer,

morrendo satisfazer,

que de tal Pai seja Filho.

Se filho de Adão não sou,

e me despe a humanidade

vossa justa impiedade,

isso me desconfiou:

pois não só me despojou

do bom sangue sucessivo,

que me fez vosso cativo,

senão que se de Pai tal

não sou filho natural,

mal serei vosso adotivo.

Meu Deus, meu Pai, meu Senhor,

lembra-me, quando dizíeis,

que uma ovelha, que perdíeis,

vos dava a pena maior:

eu sou a ovelha pior,

de quantas vós pastorais,

e se os suspiros, e ais

de uma ovelha tão sentida

são sinais de estar perdida,

que fazeis, que a não cobrais?

As noventa e nove unidas,

que andam no vosso rebanho

adrede as desacompanho,

porque estimais as perdidas:

sendo eu das mais desunidas,

que tinha o vosso redil,

como a cura pastoril

vos falta de me buscar,

se eu sei, que por me afastar

valho mais que quatro mil?

Se acaso me desprezais,

porque estou pobre de lã,

se hoje sou pobre, amanhã

terei lã como as demais:

vós mesmo me despojais,

bem que por meios humanos,

pois sirvam-me os vossos danos

e farei, que não se entenda,

que o bom para minha emenda

é mau para os vossos panos.

Os vossos altos decretos,

e juízos escondidos

não alcançam meus sentidos

rasteiros, quanto discretos:

mas se bastam meus afetos,

se basta a triste memória,

com que refiro esta história

de estar pobre por desgraça,

dai-me os bens da vossa graça,

para adquirir os da Glória.