ESTANDO O POETA REFUGIADO DE SUA MESMA POBREZA NA ILHA DE MADRE DE DEOS, TEVE NO...
Ah Senhor! quanto me pesa
de vos ofender, de sorte
que sendo o crime de morte,
me castigais com pobreza:
se a nossa antiga fraqueza
e primeiro trato dobre
pena mortal, que a soçobre,
destes por lei, que eu suporto,
como me livrais de morto,
e me condenais a pobre?
Dirá vossa indignação,
que me dais pobreza, e vida,
porque viva mais sentida
minha pena, e aflição:
que os mortos não sentem não;
e assim para que eu mais sinta
a dor, que ao morrer requinta,
pois vivendo é mais amarga,
me dais a vida tão larga,
porque a morte é tão sucinta.
Seja, Senhor, o que digo,
ou outra seja a verdade,
faça-se a vossa vontade,
tenha eu vida por castigo:
e quando o tempo inimigo
a carícias me condene,
tanto eu viva, e tanto pene,
tanto padeça, e de sorte,
que se há de aliviar-me a morte,
nunca a morte me despene.
Por castigo mui pesado,
e por pena mui crescida
tenho, meu Deus, esta vida,
mas maior é meu pecado:
vós tendes contrapesado
tanto as culpas, que me dais,
que sendo a morte nos mais
um castigo tão condino,
eu nem da morte sou digno,
e por isso ma negais.
Notável detestação
fazeis, Senhor, do meu cargo,
pois não basta por descargo
a geral satisfação:
morrer foi pena de Adão
da humana prole caudilho,
e assim eu me maravilho,
pois não pude merecer,
morrendo satisfazer,
que de tal Pai seja Filho.
Se filho de Adão não sou,
e me despe a humanidade
vossa justa impiedade,
isso me desconfiou:
pois não só me despojou
do bom sangue sucessivo,
que me fez vosso cativo,
senão que se de Pai tal
não sou filho natural,
mal serei vosso adotivo.
Meu Deus, meu Pai, meu Senhor,
lembra-me, quando dizíeis,
que uma ovelha, que perdíeis,
vos dava a pena maior:
eu sou a ovelha pior,
de quantas vós pastorais,
e se os suspiros, e ais
de uma ovelha tão sentida
são sinais de estar perdida,
que fazeis, que a não cobrais?
As noventa e nove unidas,
que andam no vosso rebanho
adrede as desacompanho,
porque estimais as perdidas:
sendo eu das mais desunidas,
que tinha o vosso redil,
como a cura pastoril
vos falta de me buscar,
se eu sei, que por me afastar
valho mais que quatro mil?
Se acaso me desprezais,
porque estou pobre de lã,
se hoje sou pobre, amanhã
terei lã como as demais:
vós mesmo me despojais,
bem que por meios humanos,
pois sirvam-me os vossos danos
e farei, que não se entenda,
que o bom para minha emenda
é mau para os vossos panos.
Os vossos altos decretos,
e juízos escondidos
não alcançam meus sentidos
rasteiros, quanto discretos:
mas se bastam meus afetos,
se basta a triste memória,
com que refiro esta história
de estar pobre por desgraça,
dai-me os bens da vossa graça,
para adquirir os da Glória.