EU AMO...
Para que o censor não ladre
fazendo papel de cão,
hoje oferece-lhe o Padre
cheiroso manjericão.
Retraindo a virulência,
seja o crítico sagaz;
luzeiro por excelência
dê luz melhor que a do gás.
— Eu amo isto, isto e mais isto, —
se o diz tanto vate bom,
ao desejo não resisto
de ferir o mesmo tom.
Eu amo sem ter amores,
confesso a Vossemecês;
no galicismo há primores,
eu amo como o francês.
Eu amo a sombra do monte.
A razão querem saber?
Ela traz frescura à fonte,
onde os asnos vão beber.
Por esta ingenuidade
pode-se ver quem eu sou!
Saiba toda a humanidade
que a asneira já começou.
Eu amo o alegre passeio,
no qual se encontra em geral
fardado com todo o asseio
pacífico General.
Eu amo o herói da Esquadrilha
que, fugindo do escarcéu,
vai dançar uma quadrilha,
e acredita estar no céu.
Eu amo o bonito drama,
que no teatro se pôs;
se lhe não percebo a trama,
aplaudo quem o compôs.
Eu amo e estudo a novela,
que é leitura mui gentil,
e acendo vela e mais vela,
para não perder um til.
Eu amo a fábula certa
de Giges com seu anel,
patranha no livro inserta,
e bem digna de painel.
Eu amo o grande erudito
que nos fala de Irminsul,
e encontrou São Benedito
cá na América do Sul.
Eu amo estridentes notas,
desconhecidas de Orfeu,
quando, tiradas as botas,
deitado espero Morfeu.
Eu amo a triste harmonia,
recheada de bemóis;
música sem agonia
não vale dous caracóis.
Eu amo a baixa cantiga,
o canto de estilo chão;
não se perca por antiga
a regra do cantochão.
Eu amo, como tesouro,
voz que não pode subir,
e do cantor faz besouro,
cujo cantar é zumbir.
Eu amo o assanhaçu, ave
que, conforme se sabe, há
no Brasil, onde é suave
a goela do sabiá.
Eu amo o obscuro retiro,
para melhor poetar;
Vantagens que daí tiro
não se podem computar.
De etimológico y grego
em palavras de pury
eu amo o adequado emprego,
verbi grafia, Mucury.
Eu amo (e quem é que odeia?!)
linguagem só do Brasil;
da portuguesa cadeia
desprenda-se algum fuzil.
Eu amo acesos rastilhos
que vão queimar os sermões
de Herculano e dos Castilhos,
de Tolentino e Camões.
Eu amo essa algaravia
que enfumaça o B-A-Bá,
locução que se atavia
de fusco Tupinambá.
Eu amo os tais envelopes,
que aos sobrescritos dão fim;
mais que o guarani do Lopes.
o francês é nosso afim.
Eu amo o estilo prolixo,
pois o conciso é azar;
fina pérola no lixo,
que o frango sói desprezar.
Eu amo o grosso pleonasmo,
acho o excesso menos mau;
aproveito o metaplasmo,
quais muletas de bom pau.
Eu amo os óculos fixos
do professor de latim
que os prefixos e sufixos
sabe tim-tim por tim-tim.
Eu amo a frase que ranja,
e não me posso arrufar,
se doce eufonia arranja
rouco tambor a rufar.
Sentado à porta da rua,
olhos pregados no céu,
eu amo a pálida lua,
quando se ostenta sem véu.
Salve, ó tu mãe do refluxo
e fluxo de ondas azuis!
Eu amo teu magno influxo,
tu nos poetas influis.
Eu amo os altos planetas,
cujos cursos comparei;
graças às minhas venetas,
poeta aéreo serei.
Eu amo os cálculos longos,
que aos astrônomos convêm,
sobre os astros caudilongos,
que não dizem donde vêm.
Contra os regelos da bruma
eu amo, e porto por fé,
a doce amargura de uma
palangana de café.
Eu amo o ardente cigarro,
gosto tanto de fumar,
que, se algum apanho, agarro,
e não me o venham tomar.
Eu amo a turva fumaça,
sem desdenhar o bolor;
sei que a senhora se maça,
mas o sarro é grato olor.
Eu amo o desinteresse
do bom Padre capelão,
que daquilo só carece
com que se compra o melão.
Eu amo e louvo a perícia
de Hipocrático Doutor
que escarlatina e icterícia
não distingue pela cor.
Eu amo o jurisconsulto
que ensejo nunca perdeu,
e, sobre o que lhe eu consulto,
a razão sempre me deu.
Eu amo ajusta mão d’obra
do despacho que me dá
o juiz que se não dobra,
qual forte jacarandá.
Eu amo essa luz mortiça
do embaciado fanal
que supre o sol da Justiça,
e ilumina o tribunal.
Eu amo o bom missionário
que prega, sem ter à mão
vernáculo dicionário,
para emendar-lhe o sermão.
Eu amo a empo lada frase
com que o pregador comum
o entusiasmo me abrase,
embora eu fique em jejum.
Eu amo a roupa escarlate
de Romano Cardeal,
ainda que o Vigilate
quebre esse gozo ideal.
Eu amo em dias de gala
o desplante do Barão,
a quem a corte regala,
e os parvos invejarão.
Eu amo alguns dos Viscondes,
por inversão Condes Vis;
de baralho sejam Condes,
e tenham grã-cruz de Avis.
Eu amo o que se descobre
de bazófia no Marquês:
para bom fim o seu cobre
nem arrancado a torquês.
O eleitoral cabalista
eu amo, se por um triz
não engole toda a lista
afixada na Matriz.
Eu amo a candidatura
do amigo particular:
só alma cândida atura
tão quadrada circular.
Eu amo o representante
que vai tratar da Nação,
e se mostra um bom tratante,
como os colegas o são.
Eu amo do parlamento
o sucoso discutir:
é do espírito alimento,
não deixa de divertir.
Eu amo os mil disparates,
que hão de chegar a milhões,
quando a casa dos orates
acolher esses tralhões.
Eu amo o copo de uma água
tão pura como o cristal,
alívio da sede e mágoa
do orador que não é tal.
Eu amo o aspecto jucundo
do azedo discutidor
que excede a lave iracundo
em ser mais trovejador.
Eu amo, aplaudo e respeito
certas palavras de mel,
que reservaram no peito
quarenta arráteis de fel.
Se o Estadista na tralha
apanhado luta em vão,
eu amo as penas da gralha
usurpadas ao pavão.
Eu amo a uniformidade
do que é com o que foi:
felicite a nossa idade
progresso a passo de boi.
Eu amo e admiro a acrimônia
dos partidos do país:
ataque sem cerimônia
corta o mal pela raiz.
Eu amo o testa de ferro,
que assine os escritos teus;
se ao costume não me aferro,
obstam estímulos meus.
Eu amo os casos amenos
que um exato boletim
conta, pouco mais ou menos,
de fantástico motim.
Eu amo o lerdo sendeiro
que na entrada foi leão,
retrato assaz verdadeiro
de Luís Napoleão.
Eu amo a tenra menina,
inocentinha de truz,
que aceita cravo ou bonina,
dá seu muxoxo, e diz — cruz! —
Se vaidosa criatura
tinge a cara de carmim,
a rubra caricatura
eu amo longe de mim.
Eu amo tal sabichona
que, afeita a politicar,
argui, quando se apaixona,
El-Rei de Madagascar.
Eu amo a que desentoa
na modinha ou no lundu,
e, espevitando-se à toa,
ganha aplausos do Mandu.
Eu amo a terra das canas,
qual chistoso Salomé;
são iaiás americanas
peccatum meum contra me.
Se ameníssimo Bernardo
já teve a ideia feliz
de coroar-se de nardo
para cantar o nariz,
a independência do espirro
eu amo, e sempre amarei;
capaz de o reter nem Pirro,
nem mais poderoso rei.
Eu amo o anúncio de enterro
aqui feito no Jornal
por quem se acha no desterro,
e de si não dá sinal.
Eu amo, ao cair da lousa,
nicrologia veraz,
porque sei que a pia cousa
choromigando lerás.
— Que serviços meritórios!
Que filho digno dos pais! —
Sim, eu amo palanfrórios
entre suspiros e ais!
— Que serviços meritórios!
Que filho digno dos pais! —
Sim, os vossos vomitórios,
nicrólogos, não poupais!
Eu amo o justo desprezo
com que patrícios me leem,
e é vantagem não ’star preso
por aplausos que me deem.
Eu amo e julgo a ação boa,
enquanto melhor não for;
destarte chego a Lisboa
perfumado de alcanfor.
Eu amo a sátira rija,
e o meu fim é corrigir;
se não há quem se corrija,
ninguém posso coagir.
Eu amo... ninguém se iluda,
ao ouvir esta expressão,
crendo-me aluno que estuda
primeira conjugação.