EU AMO...

By José Joaquim Correia de Almeida

Para que o censor não ladre

fazendo papel de cão,

hoje oferece-lhe o Padre

cheiroso manjericão.

Retraindo a virulência,

seja o crítico sagaz;

luzeiro por excelência

dê luz melhor que a do gás.

— Eu amo isto, isto e mais isto, —

se o diz tanto vate bom,

ao desejo não resisto

de ferir o mesmo tom.

Eu amo sem ter amores,

confesso a Vossemecês;

no galicismo há primores,

eu amo como o francês.

Eu amo a sombra do monte.

A razão querem saber?

Ela traz frescura à fonte,

onde os asnos vão beber.

Por esta ingenuidade

pode-se ver quem eu sou!

Saiba toda a humanidade

que a asneira já começou.

Eu amo o alegre passeio,

no qual se encontra em geral

fardado com todo o asseio

pacífico General.

Eu amo o herói da Esquadrilha

que, fugindo do escarcéu,

vai dançar uma quadrilha,

e acredita estar no céu.

Eu amo o bonito drama,

que no teatro se pôs;

se lhe não percebo a trama,

aplaudo quem o compôs.

Eu amo e estudo a novela,

que é leitura mui gentil,

e acendo vela e mais vela,

para não perder um til.

Eu amo a fábula certa

de Giges com seu anel,

patranha no livro inserta,

e bem digna de painel.

Eu amo o grande erudito

que nos fala de Irminsul,

e encontrou São Benedito

cá na América do Sul.

Eu amo estridentes notas,

desconhecidas de Orfeu,

quando, tiradas as botas,

deitado espero Morfeu.

Eu amo a triste harmonia,

recheada de bemóis;

música sem agonia

não vale dous caracóis.

Eu amo a baixa cantiga,

o canto de estilo chão;

não se perca por antiga

a regra do cantochão.

Eu amo, como tesouro,

voz que não pode subir,

e do cantor faz besouro,

cujo cantar é zumbir.

Eu amo o assanhaçu, ave

que, conforme se sabe, há

no Brasil, onde é suave

a goela do sabiá.

Eu amo o obscuro retiro,

para melhor poetar;

Vantagens que daí tiro

não se podem computar.

De etimológico y grego

em palavras de pury

eu amo o adequado emprego,

verbi grafia, Mucury.

Eu amo (e quem é que odeia?!)

linguagem só do Brasil;

da portuguesa cadeia

desprenda-se algum fuzil.

Eu amo acesos rastilhos

que vão queimar os sermões

de Herculano e dos Castilhos,

de Tolentino e Camões.

Eu amo essa algaravia

que enfumaça o B-A-Bá,

locução que se atavia

de fusco Tupinambá.

Eu amo os tais envelopes,

que aos sobrescritos dão fim;

mais que o guarani do Lopes.

o francês é nosso afim.

Eu amo o estilo prolixo,

pois o conciso é azar;

fina pérola no lixo,

que o frango sói desprezar.

Eu amo o grosso pleonasmo,

acho o excesso menos mau;

aproveito o metaplasmo,

quais muletas de bom pau.

Eu amo os óculos fixos

do professor de latim

que os prefixos e sufixos

sabe tim-tim por tim-tim.

Eu amo a frase que ranja,

e não me posso arrufar,

se doce eufonia arranja

rouco tambor a rufar.

Sentado à porta da rua,

olhos pregados no céu,

eu amo a pálida lua,

quando se ostenta sem véu.

Salve, ó tu mãe do refluxo

e fluxo de ondas azuis!

Eu amo teu magno influxo,

tu nos poetas influis.

Eu amo os altos planetas,

cujos cursos comparei;

graças às minhas venetas,

poeta aéreo serei.

Eu amo os cálculos longos,

que aos astrônomos convêm,

sobre os astros caudilongos,

que não dizem donde vêm.

Contra os regelos da bruma

eu amo, e porto por fé,

a doce amargura de uma

palangana de café.

Eu amo o ardente cigarro,

gosto tanto de fumar,

que, se algum apanho, agarro,

e não me o venham tomar.

Eu amo a turva fumaça,

sem desdenhar o bolor;

sei que a senhora se maça,

mas o sarro é grato olor.

Eu amo o desinteresse

do bom Padre capelão,

que daquilo só carece

com que se compra o melão.

Eu amo e louvo a perícia

de Hipocrático Doutor

que escarlatina e icterícia

não distingue pela cor.

Eu amo o jurisconsulto

que ensejo nunca perdeu,

e, sobre o que lhe eu consulto,

a razão sempre me deu.

Eu amo ajusta mão d’obra

do despacho que me dá

o juiz que se não dobra,

qual forte jacarandá.

Eu amo essa luz mortiça

do embaciado fanal

que supre o sol da Justiça,

e ilumina o tribunal.

Eu amo o bom missionário

que prega, sem ter à mão

vernáculo dicionário,

para emendar-lhe o sermão.

Eu amo a empo lada frase

com que o pregador comum

o entusiasmo me abrase,

embora eu fique em jejum.

Eu amo a roupa escarlate

de Romano Cardeal,

ainda que o Vigilate

quebre esse gozo ideal.

Eu amo em dias de gala

o desplante do Barão,

a quem a corte regala,

e os parvos invejarão.

Eu amo alguns dos Viscondes,

por inversão Condes Vis;

de baralho sejam Condes,

e tenham grã-cruz de Avis.

Eu amo o que se descobre

de bazófia no Marquês:

para bom fim o seu cobre

nem arrancado a torquês.

O eleitoral cabalista

eu amo, se por um triz

não engole toda a lista

afixada na Matriz.

Eu amo a candidatura

do amigo particular:

só alma cândida atura

tão quadrada circular.

Eu amo o representante

que vai tratar da Nação,

e se mostra um bom tratante,

como os colegas o são.

Eu amo do parlamento

o sucoso discutir:

é do espírito alimento,

não deixa de divertir.

Eu amo os mil disparates,

que hão de chegar a milhões,

quando a casa dos orates

acolher esses tralhões.

Eu amo o copo de uma água

tão pura como o cristal,

alívio da sede e mágoa

do orador que não é tal.

Eu amo o aspecto jucundo

do azedo discutidor

que excede a lave iracundo

em ser mais trovejador.

Eu amo, aplaudo e respeito

certas palavras de mel,

que reservaram no peito

quarenta arráteis de fel.

Se o Estadista na tralha

apanhado luta em vão,

eu amo as penas da gralha

usurpadas ao pavão.

Eu amo a uniformidade

do que é com o que foi:

felicite a nossa idade

progresso a passo de boi.

Eu amo e admiro a acrimônia

dos partidos do país:

ataque sem cerimônia

corta o mal pela raiz.

Eu amo o testa de ferro,

que assine os escritos teus;

se ao costume não me aferro,

obstam estímulos meus.

Eu amo os casos amenos

que um exato boletim

conta, pouco mais ou menos,

de fantástico motim.

Eu amo o lerdo sendeiro

que na entrada foi leão,

retrato assaz verdadeiro

de Luís Napoleão.

Eu amo a tenra menina,

inocentinha de truz,

que aceita cravo ou bonina,

dá seu muxoxo, e diz — cruz! —

Se vaidosa criatura

tinge a cara de carmim,

a rubra caricatura

eu amo longe de mim.

Eu amo tal sabichona

que, afeita a politicar,

argui, quando se apaixona,

El-Rei de Madagascar.

Eu amo a que desentoa

na modinha ou no lundu,

e, espevitando-se à toa,

ganha aplausos do Mandu.

Eu amo a terra das canas,

qual chistoso Salomé;

são iaiás americanas

peccatum meum contra me.

Se ameníssimo Bernardo

já teve a ideia feliz

de coroar-se de nardo

para cantar o nariz,

a independência do espirro

eu amo, e sempre amarei;

capaz de o reter nem Pirro,

nem mais poderoso rei.

Eu amo o anúncio de enterro

aqui feito no Jornal

por quem se acha no desterro,

e de si não dá sinal.

Eu amo, ao cair da lousa,

nicrologia veraz,

porque sei que a pia cousa

choromigando lerás.

— Que serviços meritórios!

Que filho digno dos pais! —

Sim, eu amo palanfrórios

entre suspiros e ais!

— Que serviços meritórios!

Que filho digno dos pais! —

Sim, os vossos vomitórios,

nicrólogos, não poupais!

Eu amo o justo desprezo

com que patrícios me leem,

e é vantagem não ’star preso

por aplausos que me deem.

Eu amo e julgo a ação boa,

enquanto melhor não for;

destarte chego a Lisboa

perfumado de alcanfor.

Eu amo a sátira rija,

e o meu fim é corrigir;

se não há quem se corrija,

ninguém posso coagir.

Eu amo... ninguém se iluda,

ao ouvir esta expressão,

crendo-me aluno que estuda

primeira conjugação.