EU QUE NÃO É EU
Três indivíduos juntos viajavam;
um deles era calvo, outro barbeiro,
de Simplício o terce iro tinha o nome,
ou alcunha, por ser menos esperto.
No intuito de evitar sério perigo
de assalto de ladrões ou bestas feras,
combinaram que, quando dous dormissem,
velasse o companheiro sempre alerta.
Por seu turno o barbeiro então velava,
e eis que toma a navalha, e malfazejo
rapa a cabeça ao parvo que dormia.
Depois de o acordar, diz-lhe que é tempo
de render a cansada sentinela.
A bocejar levanta-se o basbaque,
leva as mãos à cabeça, e, não achando
o mínimo restolho de cabelos,
fala consigo assim cheio de espanto:
e esta! pois não é que o tal barbeiro
em vez de me acordar, acorda o calvo!