EU VI UM DIA, Ó QUE DIA! CUPIDO FORJANDO SETAS; EU QUEBREI-LH’AS: QUE ASSUNTO PA...

By Nicolau Tolentino de Almeida

A oficina de Vulcano

Eu vi nos Trinacrios montes,

Onde Esteropes e Brontes

Se ouvem gemer todo o ano.

Cobre enfarruscado pano

A entrada escura e sombria:

Lá, quando na pedra fria

Vulcano os alentos cobra,

Amor aflito com obra

Eu vi um dia, oh que dia!

Quando uni martelo se erguia,

Outro do ar a cair torna,

Aquele cai na bigorna,

Este no ar aparecia;

A abobada retinia,

E as toscas muralhas pretas

Abriam profundas gretas;

Todo cheio de carvão

Eu vi com a suja mão

Cupido forjando setas.

Uma após outra guardava

As setas o deus frecheiro

Na rica aljava, e primeiro

Na dura pedra as provava;

Alta empresa meditava.

Que no rosto bem se via;

Já as penas sacudia;

Mas não sei que lhe faltou,

Que enquanto foi e voltou.

Eu quebrei-lh’as: que alegria!

Jurou das ninfas o estrago,

Jurou vingar seus queixumes,

Não por meio de ciúmes,

Nem de amor, bem ou mal pago

Jurou pelo Estígio lago

De quebrar o arco e setas.

Introduzir as discretas

E pôr em moda o rigor,

Que vingança para amor!

Que assunto para os poetas!