EU VI UM DIA, Ó QUE DIA! CUPIDO FORJANDO SETAS; EU QUEBREI-LH’AS: QUE ASSUNTO PA...
A oficina de Vulcano
Eu vi nos Trinacrios montes,
Onde Esteropes e Brontes
Se ouvem gemer todo o ano.
Cobre enfarruscado pano
A entrada escura e sombria:
Lá, quando na pedra fria
Vulcano os alentos cobra,
Amor aflito com obra
Eu vi um dia, oh que dia!
Quando uni martelo se erguia,
Outro do ar a cair torna,
Aquele cai na bigorna,
Este no ar aparecia;
A abobada retinia,
E as toscas muralhas pretas
Abriam profundas gretas;
Todo cheio de carvão
Eu vi com a suja mão
Cupido forjando setas.
Uma após outra guardava
As setas o deus frecheiro
Na rica aljava, e primeiro
Na dura pedra as provava;
Alta empresa meditava.
Que no rosto bem se via;
Já as penas sacudia;
Mas não sei que lhe faltou,
Que enquanto foi e voltou.
Eu quebrei-lh’as: que alegria!
Jurou das ninfas o estrago,
Jurou vingar seus queixumes,
Não por meio de ciúmes,
Nem de amor, bem ou mal pago
Jurou pelo Estígio lago
De quebrar o arco e setas.
Introduzir as discretas
E pôr em moda o rigor,
Que vingança para amor!
Que assunto para os poetas!