Evocações

By Delminda Silveira de Sousa

Sombras cariciosas e queridas,

nuvens de rosa em lágrimas desfeitas,

flores à flor de um lago retratadas,

ondas que suspirastes e morrestes,

onde estais? onde estais... oh! meu passado!...

Plácida primavera! — Oh, quantas flores

o meu jardim vestiam!... Rosas lindas

s’espinhos tinham, nunca me feriram!

Tão brancos eram os lírios e açucenas,

e tão vivos os cravos!... Mais viçosas,

roxas, langues e tristes, sempre, sempre,

— eram assim essas saudades meigas,

— as saudades —, amigas da minh’alma!

E passavam serenas primaveras:

e o meu jardim sempre florido e verde,

e as flores sempre, sempre assim viçosas!

Passavam nuvens que o favônio brando

da manhã impelia; elas passavam

pelo Céu, róseas trêmulas e lindas,

mas, passando, d’orvalhos rorejavam

o meu jardim, e pérolas cobriam

as saudades sem fim dos meus amores!

Minha vida era o lago sossegado

a retratar o Céu; meigas boninas

debruçadas das margens verdejantes,

ali — num fundo azul, estremeciam,

à doce viração do amanhecer.

Às vezes, — mar azul, calmo, mansinho, —

em merencórias ondas suspirosas,

embalava o batel dos meus afetos

qual berço de corais — meu coração!

Depois... oh nunca mais!...

Do meu jardim murcharam ledas flores,

e desbrocharam só roxas violetas,

e orvalhadas de pranto, mil saudades!

Fora tudo ilusão, prismas, miragens,

sonhos, enganos, juvenis quimeras

do meu ideal do meu ideal de poeta!...

Sombras cariciosas e queridas,

nuvens de rosa em lágrimas desfeitas,

flores à flor de um lago retratadas,

ondas que suspirastes e morrestes...

Oh! meu passado, oh! meu sonhar perdido!...