Exemplos de atividade

By Delminda Silveira de Sousa

— Colega, vou narrar-te a causa poderosa

Que de mim fez, num dia, aluna estudiosa.

Voltara a Primavera: os lírios, os jasmins,

E muitas flores mais, cobriam os jardins.

A linda trepadeira, em verde cortinado,

Formava deleitoso abrigo perfumado.

Vinha rompendo o sol; cantavam passarinhos,

E já pelos rosais se viam novos ninhos.

Eu despertara cedo, e no estudo cuidava...

Porém, que atroz preguiça então me dominava!...

Nessa disposição, os livros desprezei,

E o puro, livre ar, gostosa procurei.

Havia no jardim tanta frescura e encanto...

Essas flores gentis me cativavam tanto...

Entrei; chegam também, voando, mil abelhas,

O seio a procurar de flores mui vermelhas.

Notei-lhes, desde logo, a grande atividade,

A ordem, o labor, e essa fraternidade

Que tão firme entre nós, assim, quisera ver!

Oh! que melhor lição eu poderia ter

Para o trabalho amar e à escola dar valor?!

“Sim! — o livro é um jardim: cada letra uma flor,

Que da ciência o mel, em si, puro, contém.

Abelhas, — somos nós; — nós que vamos, também,

Doce mel extrair às letras reunidas,

— Às letras — geniais ideias florescidas!”

Isto pensei, então, e esse pensamento

Firmou-se na minh’alma, e deu-me um novo alento;

Depois dessa lição tão bela e proveitosa,

Chamaram-me na escola — aluna estudiosa!

—Tudo isso é muito belo! — é mesmo — singular!

Porém, escuta agora o que te vou contar:

Também eu despertara, um dia, preguiçosa;

Era linda manhã, — uma manhã radiosa!

O outono havia já amanhecido o fruto;

Era belo de ver-se o salutar produto,

Os ramos do pomar vergando para o chão!

No verde laranjal, o ouro em profusão!

Que doces cambucás, que pêssegos macios!

Contraste encantador — maracujás sombrios

A púrpura das romãs, ali, desafiando!

O passaredo vinha, alegre chirleando,

Com trilhos de ventura, em coro fraternal,

Haurir em taças d’oiro o néctar divinal!

Eu, tudo observava, atenta, curiosa,

À sombra d’amoreira, esplêndida, frondosa.

Nisto, um bando notei de lindas borboletas

No ar a voltejar sutis, irrequietas;

E, por entre o verdor dos ramos, enleados

Uns novelinhos vi, à luz do sol, dourados.

Um deles desprendi com máximo cuidado:

Era um louro casulo, um mimo delicado!

Ora, minha lição da véspera versara

Sobre — a origem da seda: — a seda bela e cara,

Que d’Europa nos vem, — de tanta utilidade!

Eu, comigo pensei: — é belo, na verdade,

O estudo universal da grande Natureza!

— Que fontes de prazer, de glórias, de riqueza

Aos homens oferece em cada maravilha!

Oh! a ciência é luz que vem dos Céus, e brilha

No pensamento nosso, em nossa inteligência!

— Se ao pequenino inseto, a sábia Providência,

O trabalho ensinou para nos ser exemplo,

Colega! — seja a escola o mais sagrado templo,

Onde o espírito nosso em tépido agasalho,

Ganhe, à luz do saber, — a glória do trabalho!

(Apertam-se, efusivamente, as mãos.)