Êxtase

By Delminda Silveira de Sousa

O sol ia morrendo

por trás do serro azul, suavemente;

tintas de rosa e ouro no poente

gentis se confundiam como as flores

nas extensas campinas arrelvadas

de grama veludosa.

No verde laranjal, níveos primores

abrem à luz da tarde carinhosa.

A sós, à grata sombra dos verdores

que a Primavera como um Céu bordara

d’áureas boninas frescas e mimosas,

eu sonhava, e o meu sonhar tão doce,

qual se arroubo de amor celeste fosse,

minh’alma arrebatava embevecida

longe, longe da terra!

Na ideal vida

eu não sentia os fundos dissabores

que aqui nos pungem... não!

— só a saudade — do coração martírio,

— doce e branda —

como o sorrir que ao pranto se mistura,

o seio me inundava!

Mas, eis que voz sentida

dentre as balseiras de silvestres rosas,

veio quebrar-me o doce encantamento,

qual se fora de brisas suspirosas

múrmuro alento...

A fronte alevantei; já do poente

as cores desmaiavam...

lágrimas d’ouro pelo val’brilhavam

no seio das cecéns;

só uma estrela,

uma estrela formosa lá do ocaso

velava-me o sonhar,

e a meiga rola, a rola entristecida

co’a terna voz tão dúlcida e sentida!

E eu despertei; minh’alma sequiosa,

ai! fora aos Céus haurir suave néctar

que a terra já não tem!...

Porém, volvendo, — meiga sensitiva,

confrangeu-se e... chorou!

— nos Céus ficara

o amor de minha Mãe!...