Êxtase

By João da Cruz e Sousa

Quando vens para mim, abrindo os braços

Numa carícia lânguida e quebrada,

Sinto o esplendor de cantos de alvorada

Na amorosa fremência dos teus passos.

Partindo os duros e terrestres laços,

A alma tonta, em delírio, alvoroçada,

Sobe dos astros a radiosa escada

Atravessando a curva dos espaços.

Vens, enquanto que eu, perplexo d’espanto,

Mal te posso abraçar, gozar-te o encanto

Dos seios, dentre esses rendados folhos.

Nem um beijo te dou! abstrato e mudo

Diante de ti, sinto-te, absorto em tudo,

Uns rumores de pássaros nos olhos.