Fatalidade!
Tão moço ainda, e no cabelo escuro
tramas de prata s’enredando já!
Pobre mancebo!... Triste palinuro,
no mar da vida quão perdido está!
Viu a Sereia... era mulher formosa,
tinha nos olhos lindo azul do Céu
nos frescos lábios o carmim da rosa,
louro o cabelo qual dourado véu;
Viu a Sereia... doce canto ouviu-lhe,
a voz tão meiga na su’alma ecoa;
da mão pequena a maciez sentiu-lhe,
era poeta... docemente amou-a!
“Vem, disse a bela, no meu leite verde
contigo eu quero adormecer, sonhar!
Vê no Infinito que no mar se perde,
a linda estrela que nos vai guiar!
O mar é verde, de coral vermelho
mimosos ramos lá se ocultam mil;
o maré lindo, cristalino espelho
o Céu d’aurora a retratar gentil!
Vem, que eu te amo, sonhador d’encantos!
Vem que te oferto meu constante amor;
— aqui tens perlas, que não são de pranto,
— e tens suspiros, que não são de dor!”
Pobre poeta! Na manhã da vida
o doce canto da Sereia ouviu!
Mas se era um anjo essa mulher querida...
ao dela o triste o seu destino uniu!
Ele era moço; ela, mulher formosa,
a voz tão meiga, tão singela e boa!
O Céu nos olhos e nos lábios, rosa...
era poeta, docemente amou-a!
Porém qual nuvem de manhã ridente,
desfez-se um dia essa ilusão falaz!
Pobre Poeta! sobre a mão tremente,
pendida a fronte cismadora traz!
Ah! quem diria que a traição pudesse
num peito d’anjo se abrigar possante,
e sem piedade a retalhar viesse
do meigo vate o coração amante?!...
Pobre poeta, na manhã da vida,
tramas de prata no cabelo tem!
Ah! foi-lhe o sonho uma ilusão mentida
que amor lhe fora uma ilusão também!