Fatalidade!

By Delminda Silveira de Sousa

Tão moço ainda, e no cabelo escuro

tramas de prata s’enredando já!

Pobre mancebo!... Triste palinuro,

no mar da vida quão perdido está!

Viu a Sereia... era mulher formosa,

tinha nos olhos lindo azul do Céu

nos frescos lábios o carmim da rosa,

louro o cabelo qual dourado véu;

Viu a Sereia... doce canto ouviu-lhe,

a voz tão meiga na su’alma ecoa;

da mão pequena a maciez sentiu-lhe,

era poeta... docemente amou-a!

“Vem, disse a bela, no meu leite verde

contigo eu quero adormecer, sonhar!

Vê no Infinito que no mar se perde,

a linda estrela que nos vai guiar!

O mar é verde, de coral vermelho

mimosos ramos lá se ocultam mil;

o maré lindo, cristalino espelho

o Céu d’aurora a retratar gentil!

Vem, que eu te amo, sonhador d’encantos!

Vem que te oferto meu constante amor;

— aqui tens perlas, que não são de pranto,

— e tens suspiros, que não são de dor!”

Pobre poeta! Na manhã da vida

o doce canto da Sereia ouviu!

Mas se era um anjo essa mulher querida...

ao dela o triste o seu destino uniu!

Ele era moço; ela, mulher formosa,

a voz tão meiga, tão singela e boa!

O Céu nos olhos e nos lábios, rosa...

era poeta, docemente amou-a!

Porém qual nuvem de manhã ridente,

desfez-se um dia essa ilusão falaz!

Pobre Poeta! sobre a mão tremente,

pendida a fronte cismadora traz!

Ah! quem diria que a traição pudesse

num peito d’anjo se abrigar possante,

e sem piedade a retalhar viesse

do meigo vate o coração amante?!...

Pobre poeta, na manhã da vida,

tramas de prata no cabelo tem!

Ah! foi-lhe o sonho uma ilusão mentida

que amor lhe fora uma ilusão também!