FAZIA O POETA TAIS EXCESSOS POR ESTA CATONA, QUE THOMAZ PINTO, E OUTROS LHOS ESTRANHARAM, E ELLE OS INCREPA NESTAS DECIMAS DE NESCIOS NO AMOR.

By Gregório de Matos Guerra

Que pouco sabe de amor,

quem viu, formosa Catona,

que há nessa celeste Zona

astro, ou luminar maior:

também a violeta é flor,

e mais é negra a violeta,

e se bem pode um Poeta

uma flor negra estimar,

também eu posso adorar

nos céus um pardo planeta.

Catona é moça luzida,

que a pouco custo se asseia,

entende-se como feia,

mas é formosa entendida:

escusa-se comedida,

e ajusta-se envergonhada,

não é tão desapegada,

que negue a uma alma esperança,

porque enquanto a não alcança,

não morra desesperada.

Pisa airoso, e compassado,

sabe-se airosa mover,

calça, que é folgar de ver,

e mais anda a pé folgado:

conversa bem sem cuidado,

ri sisuda na ocasião,

escuta com atenção,

responde com seu desdém,

e inda assim responde bem,

é benquista a sem-razão.

É parda de tal talento,

que a mais branca, e a mais bela

deseja trocar com ela

a cor pelo entendimento:

é um prodígio, um portento,

e se vos espanta ver,

que adrede me ando a perder,

dá-me por desculpa Amor,

que é Anjo trajado em cor,

e Sol mentido em mulher.