Feia

By João da Cruz e Sousa

O teu semblante divino,

Onde uma cisma vagueia,

Tem a tristeza de um sino

Que vibra em remota aldeia.

Para afastar os pesares

A natureza tem flores,

As noites os seus luares,

As almas os seus amores.

A roseira tem a rosa,

A cerejeira cereja

E o noivado a perfumosa,

Celeste benção da igreja.

E para o encanto dos olhos

Há no céu tantas estrelas

Que mesmo através de sobrolhos

É feliz quem pode vê-las.

Só tu não tens para as mágoas

As flores da natureza;

Luares entre essas fráguas,

Amores, nessa tristeza.

Não tens rosas de roseira

Nem benção do noivado,

Nem frutos da cerejeira

Do teu sorriso adorado.

E nem teus olhos ao menos

O encanto d’estrelas doura,

Pomba de voos serenos

Perdida em seara loura.

Não sei que dor, nem que sorte,

Nem que sina te entristece

Que andas branca como a morte

E bem mais vaga que a prece.

Ai! tua sina é ser feia!

Mas não é a pior sina...

Muito pior é a da areia

Levada na aragem fina!