FESTEJA UMA PIPA DE VINHO, QUE ENTROU NO CONVENTO DE S. FRANCISCO DAQUELLA VILLA...
Na nova Jerusalém,
na nossa Cidade Santa,
onde São Francisco planta
mais virtudes, que ninguém:
veio sobre um palafrém
um Rabi rubi empipado,
que por nos ser prometido,
foi com ramos aplaudido,
e entre palmas festejado.
O Pissarro Sacristão
ia com a cruz alçada,
que é cerimônia forçada
em tão alta procissão:
para os tocheiros então
dous leigarrões convocamos,
que por seus nomes chamamos
o Rabelo, e o Doutor,
que a Dominga do Tabor
transfigurou na de Ramos.
Criam os mais fariseus,
que o vinho das malvasias
era em verdade o Messias
esperado pelos seus:
por esta causa os sandeus,
como o vinho entrava já,
cuidando, que era o Maná,
qualquer com galhofa interna
com seu ramo de taverna
lhe ia cantando hosaná.
Como a procissão chegasse
ao refectório, e ali
esperasse o tal Rabi
por um burro, que o levasse,
não faltou naquela classe
um burro de boa idéia,
que trazendo a taça cheia,
soube mudar o Senhor
dentre as glórias do Tabor
às bodas de Galiléia.
O nosso Miguel Ferreira
por ser do corpo pigmeu
fez figura de Zaqueu
trepado sobre a figueira:
vendo a sua borracheira,
e haver já bebido um tacho,
lhe disse o Rabi, Borracho,
descendo, que desta vez
tendo entrado português
hás de sair um gavacho.