FESTEJA UMA PIPA DE VINHO, QUE ENTROU NO CONVENTO DE S. FRANCISCO DAQUELLA VILLA...

By Gregório de Matos Guerra

Na nova Jerusalém,

na nossa Cidade Santa,

onde São Francisco planta

mais virtudes, que ninguém:

veio sobre um palafrém

um Rabi rubi empipado,

que por nos ser prometido,

foi com ramos aplaudido,

e entre palmas festejado.

O Pissarro Sacristão

ia com a cruz alçada,

que é cerimônia forçada

em tão alta procissão:

para os tocheiros então

dous leigarrões convocamos,

que por seus nomes chamamos

o Rabelo, e o Doutor,

que a Dominga do Tabor

transfigurou na de Ramos.

Criam os mais fariseus,

que o vinho das malvasias

era em verdade o Messias

esperado pelos seus:

por esta causa os sandeus,

como o vinho entrava já,

cuidando, que era o Maná,

qualquer com galhofa interna

com seu ramo de taverna

lhe ia cantando hosaná.

Como a procissão chegasse

ao refectório, e ali

esperasse o tal Rabi

por um burro, que o levasse,

não faltou naquela classe

um burro de boa idéia,

que trazendo a taça cheia,

soube mudar o Senhor

dentre as glórias do Tabor

às bodas de Galiléia.

O nosso Miguel Ferreira

por ser do corpo pigmeu

fez figura de Zaqueu

trepado sobre a figueira:

vendo a sua borracheira,

e haver já bebido um tacho,

lhe disse o Rabi, Borracho,

descendo, que desta vez

tendo entrado português

hás de sair um gavacho.