FILENO

By Cláudio Manuel da Costa

Na margem deleitosa

Do cristalino Tejo,

Sentado um Pescador, a pobre rede

Enquanto tem nas praias estendida,

Ao longe uma harmonia

Nunca ouvida jamais, ao longe escuta

Um canto tão sonoro,

Que nem Glauco suave, nem o cego

Amante da formosa Galatéia,

De Sicília entoou na branca areia.

Corino era que vinha

Da aldeia já voltando, onde o pescado

A vender estivera; ali no povo

Uma notícia achou, a qual em trovas,

Por um Pastor discreto

Ordenadas ao som da acorde avena,

Trazia para o mar, quando aos ouvidos

Foi mais próximo o som. Eu, que atendia,

Estas doces cadências percebia.

Que alegria, que gosto

Ao mundo comunica

O nosso Maioral O grato rosto

Do júbilo se explica

Pela voz dos Pastores,

Títiro e Alcimedon, grandes cantores.

Os campos neste dia

Se cobrem de verdura:

Pasta o gado contente a relva fria,

E na verde espessura

Novo contentamento

Desterra toda a sombra do tormento.

Os Sátiros das covas,

Deixando o caro abrigo,

Do seu rendido amor vêm a dar provas:

Eles trazem consigo

De Ninfas delicadas

Igualmente as mais belas e engraçadas.

Em concertados hinos

Soa toda a floresta:

Pastores mais gentis, mais peregrinos,

Concorrendo na festa

Do Maioral, oh! quanto

Agradável se faz seu doce canto!

Um louva a providência

Com que a tudo consulta;

Outro aplaude entre todos a excelência

Com que o seu gênio avulta,

Tornando venturosos

Deste campo os Pastores mais ditosos.

Já torna ao nosso mundo

Aquela idade de ouro;

O campo sem cultura já fecundo

Produz o trigo louro.

Tudo está melhorado:

A montanha, a campina, o vale, o prado.

A nós torna a inocência

Do século primeiro:

Torna a justiça, as Graças, a Clemência,

Que do tempo grosseiro

Desterra a maldade.

Oh! feliz estação! Oh! doce idade!

Assim cantava, quando

Ao chegar o seu barco

Junto à margem frondosa

Um pouco se calou; eis entretanto

Dos versos que lhe ouvia,

Aplicando uma parte ao tosco alento

Da flauta piscatória, desta sorte

A seu modo dispunha,

Das praias onde estava,

Fileno, o Pescador que o escutava.