FILENO A ALGANO
Depois, Algano amado,
Que por mais verde, e plácido terreno,
Deixaste o sítio ameno,
Onde alegre pascia o manso gado,
Tomou minha saudade
Triste posse no horror da soledade.
De todos os pastores
Foi mui sentida a tua ausência dura:
Que o bem de uma ventura
Se se perde, inda os mesmos moradores
Da choça, que os abriga,
Sabem sentir: oh quanto a dor obriga!
Pouco importa a cultura,
E agudeza maior do pensamento:
Que a força do tormento
Sobre a mesma rudeza o estrago apura;
E quem melhor discorre,
É, quem buscando alívio, menos morre.
Talvez mais lisonjeia
Esta no meu pesar néscia jactância;
Por ser minha ignorância
Alimento, em que a mágoa mais se ateia:
Que a ser mais entendido,
Não fora o meu tormento tão crescido.
Não somente o efeito
De tão ingrato mal em nós sentimos;
Mas, se bem advertimos,
Tudo ao grande pesar ficou sujeito:
Que fez a ausência tua
A saudade em nós razão comua.
O rio, que algum dia
Líquida habitação das ninfas era,
A cor, que a primavera
Nestes frondosos álamos vestia,
Tudo perde o seu brio:
Não tem o álamo cor, ninfas o rio.
Não se ouvem já sonoras,
(Quando arguindo o adúltero condena),
Queixas da Filomena;
E até do tempo as carregadas horas
Correm mais dilatadas;
E parece, que a dor as faz pesadas.
É tudo horror; é tudo
Uma pálida imagem da tristeza.
Habita esta aspereza
O fúnebre silêncio, o assombro mudo:
Que tanto pode, tanto
De tua ausência o mísero quebranto.
Ah meu Algano caro,
Doce consolação do campo ameno!
O teu triste Fileno
Busca debalde alívio: que o reparo
Da saudade está posto
Na imagem só de teu alegre rosto:
Não só o seu alento,
Porém inda dos campos a alegria,
A clara luz do dia,
Das aves o canoro, e doce acento,
E quanto tem mudado
Da tua ausência o desumano estado.
Apressa, apressa o passo,
Com que hoje alegras as regiões do Tejo;
Rompe já o embaraço,
Que se interpõe à vista do desejo:
E possa alegre ver-te,
Algano meu, quem sabe merecer-te.