FINGE O POETA QUE SE ARREPENDE DE A TER AMADO, E TUDO PIQUES PARA SER QUERIDO.

By Gregório de Matos Guerra

De uma Moça tão ingrata

que pode contar agora

a Musa, que me arrebata,

senão que é falsa traidora,

e traidoramente mata.

Para a ingratidão não sei,

que se ponha certa a pena,

porque se a condena a Lei,

nunca certa pena achei

na mesma Lei, que a condena.

Isto agraveza casou

da culpa, que se condena,

que como torpe a julgou,

não pode chegar a pena,

onde a ingratidão chegou.

A maior condenação,

a mais terrível, e forte,

é, quando de morte a dão;

porém uma ingratidão

não se paga nem co’a morte.

Mas eu vejo, que esta ingrata

sobre não pagar co’a morte

as vidas, que desbarata,

vive ufana em sua sorte,

e sobre viver me mata.

Não me mata a ingratidão,

com que trata o meu amor,

mata-me a satisfação,

e glória, com que o rigor

me dá como galardão.

Se chegara a conhecer

que falta ao gratificar,

me obrigara a mais querer,

sem pressupor, que o dever

é gênero de pagar.

Mas cuidar de presumida,

que com deixar-se querer

me paga os riscos da vida,

e as ânsias do pertender

com dar-se por pertendida:

É crueldade, é rigor

que nenhum peito suporta:

mas recate o seu furor,

que eu sei, que nem sempre amor

há de estar atrás da porta.

Eu perdoara, o que deve

a meu ardor, e fineza,

e afirmo para firmeza

esta quitação tão breve,

que, do que lhe quis, me pesa.