FINGE O POETA QUE SE ARREPENDE DE A TER AMADO, E TUDO PIQUES PARA SER QUERIDO.
De uma Moça tão ingrata
que pode contar agora
a Musa, que me arrebata,
senão que é falsa traidora,
e traidoramente mata.
Para a ingratidão não sei,
que se ponha certa a pena,
porque se a condena a Lei,
nunca certa pena achei
na mesma Lei, que a condena.
Isto agraveza casou
da culpa, que se condena,
que como torpe a julgou,
não pode chegar a pena,
onde a ingratidão chegou.
A maior condenação,
a mais terrível, e forte,
é, quando de morte a dão;
porém uma ingratidão
não se paga nem co’a morte.
Mas eu vejo, que esta ingrata
sobre não pagar co’a morte
as vidas, que desbarata,
vive ufana em sua sorte,
e sobre viver me mata.
Não me mata a ingratidão,
com que trata o meu amor,
mata-me a satisfação,
e glória, com que o rigor
me dá como galardão.
Se chegara a conhecer
que falta ao gratificar,
me obrigara a mais querer,
sem pressupor, que o dever
é gênero de pagar.
Mas cuidar de presumida,
que com deixar-se querer
me paga os riscos da vida,
e as ânsias do pertender
com dar-se por pertendida:
É crueldade, é rigor
que nenhum peito suporta:
mas recate o seu furor,
que eu sei, que nem sempre amor
há de estar atrás da porta.
Eu perdoara, o que deve
a meu ardor, e fineza,
e afirmo para firmeza
esta quitação tão breve,
que, do que lhe quis, me pesa.