FOI VISTA ESTA DAMA PELO POETA EM CASA DE HUA AMIGA INDO DIVERTIR-SE AO CAMPO CO...

By Gregório de Matos Guerra

Eu vi, Senhores Poetas,

quarta-feira pelas três

do presente mês, que corre,

o prodígio, que direi.

Ia eu por certo bairro,

que agora calar convém,

porque o lanço me não furtem,

ao campo a espairecer.

Acompanhava-me entonces

um amigo, que à mi fe

e douto disto de fêmeas,

porque as conhece el por el.

Eis que em frente de uma porta,

que sua urupema tem,

ouvimos um ruge-ruge

da sêda de um guarda-pé

Chegou logo o tal amigo,

que no que toca a saber

segredos, de quem será,

e grandíssimo corcês.

Chegou, como tenho dito,

e mesurado de pés

abriu a urupema, e disse,

sois vos, Dona Bersabé!

Ao que ela respondeu logo,

esta sou: entre você;

ia ele ja quase entrando,

quando eu da rua gritei:

“Tá, que não é cortesia

entrar só vossa mercê,

deixando-me a mim na rua,

que de inveja morrerei”

“Também você tem licença

(me disse a Môça) porque

onde há lei de cortesia

não val comigo outra lei.”

Palavras não eram ditas,

quando eu logo a quatro pés

me emboquei pela urupema,

tomei vênia, e me assentei.

Fitei os olhos na Môça

e embasbacado de a ver

estive co’a alma no papo

morrerei não morrerei.

Mas subindo-me a memória,

que era obrigado por fé

servir ao menos sete anos

Jacó a bela Raquel;

Acordei do paracismo,

e fiz tanto por viver,

que estou capaz de pintar-vos

quao jeitosa a Môça é.

Era, se creio a meus olhos,

e e crível o meu pincel,

Anjo disfarcada em Dama,

ou flor mentida em mulher.

Era um sol: mal a comparo:

porque o sol que tem que ver,

tendo a caraça redonda

mascarada de ouropel?

Era uma estrêla: pior,

a estrêla que tem que ver?

é pisca em anoitecendo,

e vesga ao amanhecer.

Era uma jóia; mal disse;

porque com quatro vinténs

se compra uma boa jóia,

e esta Môça nem com dez.

Era um diamante; tampouco,

que o diamante vem a ser

um parto bruto da terra,

e ela imagem de Deus é.

Eu digo desta vez: era

: mas não sei, em que

se me pega a voz, que enfim

não acabo de o dizer.

Digo, que era Mariana

“disse-o?” que remédio tem?

já dei co segrêdo em terra;

mal fiz: mas aliviei.

É linda; e que manso o digo:

tem garbo: e como que o tem,

e bonita, não sei como,

e tem gravea como quê.

Mais que o favor, e o carinho

da mais formosa mulher

val de Mariana um riso:

que digo um riso? um desdém.

Neste estado ia o debuxo

dêste meu tosco pincel,

quando pela porta entrou

todo o firmamento a pé.

Entrou uma linda Môça,

que mora logo através,

pela porta do quintal,

traidoramente fiel.

Fizemos-lhe a reverência,

e ela com gentil prazer

nos disse “as de vossarcedes,

e nos as de vossarcê.”

Foi-se a ela o meu amigo

quel Pirata Dunquerqué,

e a rendeu a bom partido,

porque pediu bom quartel.

Estimei a ocasião,

porque co’a outra fiquei

tão só, que os meus segredinhos

lhe pude entonces dizer.

Fretam-nos finalmente

para a semana, que vem,

que por estar achacada,

de achaque se quis valer

A outra Môça do amigo

ficou fretada também

para qualquer outro dia,

porque bem sabe em qualquer.

Isto, Senhores Poetas,

é, o que a quarta passei,

e o que suceder à quinta

direi a vossas mercês.