FOI VISTA ESTA DAMA PELO POETA EM CASA DE HUA AMIGA INDO DIVERTIR-SE AO CAMPO CO...
Eu vi, Senhores Poetas,
quarta-feira pelas três
do presente mês, que corre,
o prodígio, que direi.
Ia eu por certo bairro,
que agora calar convém,
porque o lanço me não furtem,
ao campo a espairecer.
Acompanhava-me entonces
um amigo, que à mi fe
e douto disto de fêmeas,
porque as conhece el por el.
Eis que em frente de uma porta,
que sua urupema tem,
ouvimos um ruge-ruge
da sêda de um guarda-pé
Chegou logo o tal amigo,
que no que toca a saber
segredos, de quem será,
e grandíssimo corcês.
Chegou, como tenho dito,
e mesurado de pés
abriu a urupema, e disse,
sois vos, Dona Bersabé!
Ao que ela respondeu logo,
esta sou: entre você;
ia ele ja quase entrando,
quando eu da rua gritei:
“Tá, que não é cortesia
entrar só vossa mercê,
deixando-me a mim na rua,
que de inveja morrerei”
“Também você tem licença
(me disse a Môça) porque
onde há lei de cortesia
não val comigo outra lei.”
Palavras não eram ditas,
quando eu logo a quatro pés
me emboquei pela urupema,
tomei vênia, e me assentei.
Fitei os olhos na Môça
e embasbacado de a ver
estive co’a alma no papo
morrerei não morrerei.
Mas subindo-me a memória,
que era obrigado por fé
servir ao menos sete anos
Jacó a bela Raquel;
Acordei do paracismo,
e fiz tanto por viver,
que estou capaz de pintar-vos
quao jeitosa a Môça é.
Era, se creio a meus olhos,
e e crível o meu pincel,
Anjo disfarcada em Dama,
ou flor mentida em mulher.
Era um sol: mal a comparo:
porque o sol que tem que ver,
tendo a caraça redonda
mascarada de ouropel?
Era uma estrêla: pior,
a estrêla que tem que ver?
é pisca em anoitecendo,
e vesga ao amanhecer.
Era uma jóia; mal disse;
porque com quatro vinténs
se compra uma boa jóia,
e esta Môça nem com dez.
Era um diamante; tampouco,
que o diamante vem a ser
um parto bruto da terra,
e ela imagem de Deus é.
Eu digo desta vez: era
: mas não sei, em que
se me pega a voz, que enfim
não acabo de o dizer.
Digo, que era Mariana
“disse-o?” que remédio tem?
já dei co segrêdo em terra;
mal fiz: mas aliviei.
É linda; e que manso o digo:
tem garbo: e como que o tem,
e bonita, não sei como,
e tem gravea como quê.
Mais que o favor, e o carinho
da mais formosa mulher
val de Mariana um riso:
que digo um riso? um desdém.
Neste estado ia o debuxo
dêste meu tosco pincel,
quando pela porta entrou
todo o firmamento a pé.
Entrou uma linda Môça,
que mora logo através,
pela porta do quintal,
traidoramente fiel.
Fizemos-lhe a reverência,
e ela com gentil prazer
nos disse “as de vossarcedes,
e nos as de vossarcê.”
Foi-se a ela o meu amigo
quel Pirata Dunquerqué,
e a rendeu a bom partido,
porque pediu bom quartel.
Estimei a ocasião,
porque co’a outra fiquei
tão só, que os meus segredinhos
lhe pude entonces dizer.
Fretam-nos finalmente
para a semana, que vem,
que por estar achacada,
de achaque se quis valer
A outra Môça do amigo
ficou fretada também
para qualquer outro dia,
porque bem sabe em qualquer.
Isto, Senhores Poetas,
é, o que a quarta passei,
e o que suceder à quinta
direi a vossas mercês.