FOY ESTA DAMA VISTA DO POETA EM CERTA MANHÃ A SUA JANELLA, E ELLE LHE DÀ OS BONS...
Ontem ao romper da Aurora,
começando o amanhecer,
vi desta parte do ocaso
dois sóis, a quem quero bem.
Que fazendo oposições
com brilhantes rosicler,
ao sol, que de envergonhado
se começava a esconder.
Eclipsados vi seus raios,
mas quem suas luzes vê,
nas admirações se pasma,
nas invejas perde o pé.
Que a beleza singular,
que ostentam seus olhos, sei,
que o sol não quer competi-la,
porque a saiba engrandecer.
Cegam os seus resplandores,
e de tal sorte me tem,
que não como ao sol me escondo,
porém morro por te ver.
Como cega barboleta
ao fogo da minha fé
se queima a desconfiança
de nunca te merecer.
Valha-te Deus por Betica,
não sei dizer-te, meu bem,
como vivo enamorado,
como estou, não sei dizer.
Porque entre o doce de amar-te,
e o amargo de te não ver,
hei de viver da esperança
ou da saudade morrer.
Tua rara formosura,
eu a não sei comprender,
porque um não és tens de humana,
e um quase divina és.
E já que nesta cegueira
tua beleza me tem,
ou me corresponde amante,
ou me acaba de uma vez.
Porque tão confuso vivo,
tão triste me chego a ver,
tão temeroso me atrevo,
que é um abismo cruel.
Tal abismo o peito sente:
ora permite, meu bem,
diminuir os incêndios,
acabe-se o padecer.
Toma o astuto Piloto
o sol, só para saber,
se se acha na boa altura,
mas sem carta nada fez.
E pois no mar de meus olhos
perigos receia a fé,
manda-me, por não perder-te,
uma carta desta vez.
Dá-me velas à esperança,
com elas marearei,
já que o fogo da vontade
sempre está firme a teus pés.